Luz, raiva, ação! Kbela

Ponto de partida: Zózimo Bubul e seu brilhante “Alma no olho” (misteriosamente esquecido nos cursos e circuitos universitários de cinema) realizado com as sobras de película da produção de “Compasso de Espera”, filme protagonizado por Bubul e dirigido por Antunes Filho. Ali o corpo é a superfície viva sobre o qual deslinda-se uma trajetória, sobre o qual incidem olhares e valores, chibata e desejo sexual — nota mental: re-assistir “Get Out”, reler “Anjo Negro” e Fanon. Ponto de partida: ser negra, a experiência. O cabelo. Os produtos. As sessões de tortura. Os… Ler mais

Kemetiyu, Cheik Anta Diop

Kemetiyu – Cheik Anta Diop (2016) “Na África, cada ancião que morre é uma biblioteca que se queima”. A famosa frase do malinês Hampaté-Bâ, ainda que se refira aos saberes orais dos anciãos africanos, pode ser aplicada ao escritor multidimensional Cheik Anta Diop. Formado em áreas tão diversas quanto Física, Filosofia, Química, Linguística, História, Egiptologia, Economia, Sociologia e Antropologia, Diop tornou-se a principal referência dos saberes científicos e históricos afrocêntricos. A julgar por sua extensa e variada formação, a biblioteca que se queimou em sua morte é de proporções intangíveis. Mas de… Ler mais

Eu preciso dessas palavras escritas

Dedos tentam afagar a luz. Palavras ressoam com gravidade e tornam-se matéria cerzida no tecido. No rosto, sentimos o vento que atravessa o canavial e balança as flanelas dos  barcos presos no cais. Por fim, sufocados, nós sofremos com o cativeiro. A palavra bordada deve ser vista, ouvida e tocada, tudo de uma só vez.  O filme  resgata está capacidade do nossos olhos e ouvidos de tocar o mundo, a sinestesia necessária  para que possamos experimentar a obra do bispo do rosário em toda sua potência. O Encontro de Cinema Negro Zózimo… Ler mais

Soleil Ô, ou: viagem ao coração das trevas*

Soleil Ô (1967), de Med Hondo, é um filme tão atual quanto algumas das questões que aborda – o racismo, as heranças do colonialismo, a imigração, a diáspora, o exílio, a modernidade, o anonimato da experiência urbana etc. Mas é em sua abordagem dessas questões que o filme encontra sua contundência, que torna possível o transbordamento dos conteúdos históricos e políticos dos temas que representa por meio das formas artísticas e poéticas de seu trabalho de representação. Med Hondo Há uma linha narrativa que atravessa o filme, em torno das experiências do protagonista,… Ler mais

Por um cinema africano no feminino (III): “Um foco sobre as Mulheres Burkinabês no Cinema”*

Dando sequência às publicações que visam divulgar a produção e a participação de mulheres africanas no cinema, o FICINE traz este post escrito pela diretora e pesquisadora Beti Ellerson. O texto foi publicado originalmente em African Women in Cinema Blog, um espaço criado para a discussão de diversos assuntos relacionados à participação das mulheres africanas no cinema que faz parte do Centre for the Study and Research of African Women in Cinema. Boa leitura! “Desde início da história do cinema em Burkina Faso, as mulheres desempenharam um papel proeminente. Ouagadougou, Burkina Faso,… Ler mais

Vozes femininas negras no curta moçambicano “Phatyma” (2010)*

* Artigo escrito em parceria com Edileuza Penha de Souza. Sou forte, sou guerreira, Tenho nas veias sangue de ancestrais.Levo a vida num ritmo de poema-canção,Mesmo que haja versos assimétricos,Mesmo que rabisquem, às vezes,A poesia do meu ser,Mesmo assim, tenho este mantra em meu coração:“Nunca me verás caída ao chão”. Trecho do poema “Ressurgir das cinzas”, de Esmeralda Ribeiro. É a história de vida, os anseios, as inquietações e principalmente, a postura altiva de uma menina moçambicana que constituem o foco do curta metragem “Phatyma”. Lançado em 2010 e dirigido pelo cineasta brasileiro… Ler mais

Rasgando a tela, quebrando a corrente

“O cinema é uma AR-15e nós negros brasileiros sabemos atirar”, afirmava Zózimo Bulbul, que destaca a passagem do negro, enquanto temática para a direção dos filmes. Deixando de estar à frente das câmeras para olhar de atrás delas, ao assumir a perspectiva da auto representação, Zózimo, Waldir Onofre e Antônio Pitanga, são atores que passam a realizar filmes na década de 70, tendo a temática racial em foco. Porém, Bulbul  é o único  a compor  uma filmografia,   e dentre suas  obras destaca-se a primeira: Alma no olho (1973), realizada com restos… Ler mais

“Mãe dos netos” – Uma narrativa de afeto e memória no cinema africano

Ouça no vento / O soluço do arbusto: É o sopro dos antepassados. / Nossos mortos não partiram. Estão na densa sombra. / Os mortos não estão sobre a terra. Estão na árvore que se agita, / Na madeira que geme, Estão na água que flui, / Na água que dorme, Estão na cabana, na multidão; / Os mortos não morreram… ANCESTRALIDADE – BIRAGO DIOP Produzido em Moçambique pela FDC – Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade, realizado por Isabel Noronha e Vivian Altman, o curta-metragem “Mãe dos Netos” (2008) é um… Ler mais

No país dos homens íntegros

Em 1984, a República do Alto Volta foi rebatizada pelo seu presidente Thomas Sankara – uma das maiores lideranças africanas, comparado na América Latina à figura de Che Guevara – como Burkina Faso ou o país dos homens íntegros, seu significado em morê e dioula, duas das principais línguas do país.  O “País dos homens íntegros”, tem como capital a cidade de Ouagadougou que significa “respeito aos mais velhos”. (Chore!)  Ouaga (Uagá) é uma cidade de mais de 1,5 milhões de habitantes, extremamente agitada como toda metrópole e com uma vida cultural… Ler mais

Nada a perder ou a fotografia de Rotimi Fani-Kayodé (parte 2)

Esta é uma tradução livre de Traces of Ecstasy, uma manifesto do fotógrafo Anglo-Yorubá Rotimi Fani-Kayodé, publicado em 1987, quando o autor contava com 32 anos. Você encontra a primeira parte da tradução aqui. Traços de ênfase “Uma consciência histórica têm sido de fundamental importância no desenvolvimento de minha criatividade. A história africana e dos negros têm sido constantemente distorcida. Mesmo na África, minha educação foi dada em inglês, em escolas católicas, como se a língua e a cultura do meu povo, os Yorubá, fossem inadequadas para o desenvolvimento saudável dos jovens…. Ler mais