Grace Passô: acolher, expandir, transfigurar

Grace Passô é uma atriz. Grace Passô é uma atriz, dramaturga. Ela é atriz, dramaturga, diretora. Grace Passô é cineasta. Grace Passô é uma mulher negra no Brasil. Grace Passô é um corpo-pensamento que escreve com imagens, transfigurando os códigos da linguagem no teatro, no cinema, em experimentos sonoros a partir de uma consciência do que alguém como ela é num mundo como o de hoje e num país como o nosso. Ela compreende que “a construção da identidade é algo que sempre está em movimento, através e com o tempo”. Para ela “a consciência da sua própria identidade, ela vem com muitos embates também. Ao longo da vida o ser vai identificando ao que ele pertence”. Com essa lucidez sobre a complexidade do que somos, do que ela é no mundo, ela leva para o teatro, o cinema e para onde mais ela criar a vibração de um corpo-pensamento que se posiciona com a consciente dos códigos transtemporais que a atravessam.

Com duas décadas no teatro, sua carreira como diretora no cinema é recente. Vaga Carne, filme de estreia e co-dirigido com Ricardo Alves Jr., foi lançado em 2018.  Como atriz no cinema, o percurso se inicia em 2011, no longa “O Céu sobre os Ombros”, de 2011 e dirigido por Sérgio Borges. Nos longas-metragens, ela se destacou na parceria com os realizadores da Filmes de Plástico em “Temporada”, de 2018 e dirigido por André Novais Oliveira, e “No Coração do Mundo”, de 2019, dirigido por Gabriel Martins e Maurílio Martins.

Apesar de recente, sua carreira como diretora no cinema é intensa. Em 2020 foram 3 curtas-metragens e um experimento sonoro, sem abandonar o ofício de origem: a dramaturgia. A homenageada dessa 20ª edição da Goiânia Mostra Curtas esteve nestes dois últimos meses, com duas peças em cartaz, virtualmente, e uma obra/experimento sonoro na 34ª Bienal de São Paulo. A obra da Bienal, “Ficções Sônicas” é realizada em parceria com Barulhista e integra um projeto que se desdobra também em uma performance para teatro filmado e em um novo filme – cuja primeira versão provocada pela curadora Janaina Oliveira estreou na edição deste ano do Flaherty Film Seminar (EUA).

Em uma conversa que tivemos em 2018[1] , Grace conta do encontro com os primeiros trabalhos do cineasta André Novais Oliveira, em especial o filme Fantasmas, de 2011. “Eu me identifiquei profundamente”, disse, comparando a operação chamada por ela de “decodificação ou transfiguração” de um universo e dos elementos simbólicos ao seu redor que André apresentava ao que ela mesma havia feito em sua primeira peça encenada pelo Grupo Espanca!, Por Elise, de 2009. Para ela, o que se articulava no cinema de André e na sua própria dramaturgia era “uma curiosidade aguçada de uma pessoa que estava tentando desvendar, desmontar, se aproximar daquele universo de códigos”, para “observar e de ver como fazer surgir dali alguma coisa sem uma imposição de mundo; como escutar esse mundo”. Essa transfiguração se reafirma, nessa sua recente carreira no cinema, como uma das linhas de força estruturantes de sua criação. Aqui na Mostra, podemos vê-la em duas de suas posições que nos trazem uma exuberância que se dilata a cada personagem, a cada experimento com as imagens. Como atriz, ela está no curta “Sem Asas”, de 2019 e dirigido por Renata Martins. Como diretora, temos na programação “Vaga Carne”, de 2019, e “República”, de 2020.

Na parceria com Renata Martins, Grace empresta seu corpo-escritura para uma história cheia de delicadezas e desvios. Uma família negra – Jussara, a mãe (Grace Passô), o pai (Melvin Santana) e o filho Zu (Kaik Pereira) -, vista em situações de seu cotidiano, encara os perigos que condicionam a sua existência e a existência de tantas outras mulheres, homens e crianças como os do filme. Renata Martins afirma articular com essa história a “iminência da perda” num país em que jovens negros não estão seguros. Premiada por sua atuação, Grace articula as camadas de sutileza e de afeto que o filme, em seu registro realista, demanda, ajudando a expandir o imaginário coletivo organizado em torno de um conjunto restrito de possibilidades para um corpo como o dela nas telas. Com montagem de Cristina Amaral, o filme estabelece uma ginga com as camadas de violência na representação das vivências que constroem a condição de mulher e de negra, criando um desvio para a existência possível.

Vaga Carne é uma peça, um livro, um filme. Nela e nesses desdobramentos, Grace afirma articular “uma metáfora que aborda as matérias e a existência humana que vão ganhando um discurso sobre sua própria realidade”[2] e explicita um “corpo como uma construção social”.  A personagem é uma voz com capacidade de habitar a matéria e os corpos. No tempo da peça e do filme, a voz chega ao corpo de uma mulher e se transfigura numa urgência: é preciso compreender o que e quem é esse corpo-espaço, essa mulher no espaço-mundo ao redor. Como transcriação da peça, o filme mantém a convocação do texto: a personagem-voz interpela o público, num chamamento à participação na tarefa de nomeação e de reconhecimento daquele sujeito, daquela identidade.

República é um filme concebido e dirigido em 2020 em um apartamento e em isolamento social no meio de uma pandemia. Mais que um filme sobre a experiência de isolamento e do contexto pandêmico, é um filme sobre uma condição subjetiva num país atravessado por um conjunto sempre presente de traumas históricos. Em uma discussão sobre “narrativas de deslocamento” da diáspora negroatlântica, o sociólogo britânico de origem jamaicana Stuart Hall insiste na posicionalidade dos sujeitos que se inscrevem, com seus discursos, na cultura: “Todos nós escrevemos e falamos desde um lugar e um tempo particulares, desde uma história e uma cultura que nos são específicas. O que dizemos está sempre ‘em contexto’, posicionado[3].  Grace é uma mulher negra, brasileira, vivendo num país de permanentes crises sociais e políticas. República nasce em um momento de agudez dessas crises, de atravessamentos que escancaram as feridas da colonialidade e em meio a uma pandemia. Ao dizer do processo de criação para este filme[4], a diretora e atriz conta de um desejo de falar sobre o país a partir da “palavra Brasil no máximo de seu simbolismo”, compreendendo com muita lucidez o nosso momento histórico.  A dramaturga e cineasta nos provoca a pensar, a partir do seu corpo herdeiro da diáspora, a vivência de dois traumas coletivos que se sobrepõem neste nosso agora: as consequências dos deslocamentos negroatlânticos que se fazem presentes transtemporalmente na experiência negra brasileira e a vivência-latência de corpos ameaçados e confinados pela presença ameaçadora de um vírus com potência letal.  Em República e na sua muito coerente produção no trânsito interartes, Grace Passô nos acolhe e, nas palavras de Leda Maria Martins, “mira o de perto e alcança o infinito em nós”.

[1] entrevista publicada no catálogo da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes (2019) – edição em que foi homenageada.

[2] em entrevista para a reportagem “Grace Passô: entre síntese e profundidade”, por Gustavo Rocha para jornal O Tempo. 20/12/2018

[3] HALL, Stuart. Identidade Cultural e Diáspora. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n.24, p.68-75, 1996 p. 68, grifos do autor

[4] Conversa sobre o filme realizada em agosto de 2021 durante o processo de pesquisa para a escrita de Grace Passô: escrever com o corpo, inventariar imagens fabulantes, em parceria com Soraya Martins para Suplemento Pernambuco, publicado em outubro de 2021.

Tatiana Carvalho Costa – Professora e pesquisadora

Texto publicado originalmente no site da 20ª Goiânia Mostra Curtas – Homenagem a Grace Passô

Link: https://www.goianiamostracurtas.com.br/20/homenagem/

LEIA A ENTREVISTA COM GRACE PASSÔ

Publicado por FICINE

O FICINE tem por objetivo a construção de uma rede internacional de discussões, projetos e trocas que tenham como ponto de partida e ênfase a reflexão sobre os Cinemas Negros na diáspora e no continente africano.

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