Ciné Guimbi: cinema e resistência em Burkina Faso

photo_menor

Não é só no Brasil que espaços dedicados à exibição de filmes são fechados e transformados em igrejas, estacionamentos e shoppings. Em Burkina Faso, assim como em outros países da África, este triste processo também anda amplamente em curso.

Burkina Faso, país situado no centro-oeste africano e pouco conhecido dos brasileiros, é uma referência quando falamos em cinema africano. Acontece em sua capital o maior festival do continente, o FESPACO (Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ougadougou). É também terra natal de cineastas renomados (Gaston Kaboré, Dany Kouyaté, Moustapha Dao, Idrissa Ouedraogo só para citarmos alguns) e o centro de uma nova onda de jovens cineastas saídos de escolas de cinema locais. Contudo, ainda assim, em Burkina os espaços de cinemas também deixam gradualmente de existir.

Por lá, o fechamento das salas de cinema coincidem com o fim de um processo histórico marcado pela presença maciça do Estado na gestão da indústria cinematográfica, incluindo no que diz respeito à distribuição de filmes e manutenção de salas. No ano de 2003, foi extinta a Sociedade Nacional de Exploração Distribuição Cinematográfica de Burkina  Faso (SONACIB), instituição criada nos anos 1970 durante os primeiros momentos da forte nacionalização do setor. Com o fim da SONACIB, a maioria das salas de projeção foram vendidas à iniciativa privada, que as transformaram em supermercados, garagens de ônibus, templos religiosos.

Um caso emblemático deste processo é o que acontece na antiga capital do país, a cidade de Bobo-Dioulasso. Lá, o fechamento da SONACIB levou à extinção as duas últimas salas que ainda resistiam, deixando seus 600.000 habitantes sem espaços adequados à projeção de filmes. Assim, desde 2005, não existem salas de cinema na cidade. Esta situação estimulou a Associação de Apoio ao Cinema de Burkina Faso (Association de Soutien au Cinéma du Burkina Faso), composta por realizadores e profissionais de imagem, a iniciar um movimento pela restauração de um antigo cinema ao ar livre da cidade de Bobo, o Ciné Guimbi.

Construído em 1956, o Ciné Guimbi faz parte do história do cinema em Burkina Faso. Os filmes lá exibidos incentivaram gerações de cineastas, como ressalta o cineasta Gaston Kaboré, ao falar da importância das sessões no Guimbi para a sua. “A meu ver, o Cine Guimbi é um elemento mítico do patrimônio cinematográfico nacional. Entre 1964 e 1970, eu assisti filmes nesta sala que ajudaram a fundamentar os conceitos básicos sobre a sétima arte durante a minha adolescência”, diz o diretor que nasceu em Bobo-Dioulasso.

Kaboré faz parte da Associação de Apoio ao Cinema de Burkina Faso . Criada em 2011, a Associação tem por objetivo buscar meios, financeiros inclusive, para a manutenção e expansão do cinema em Burkina. E ainda que seja uma organização sem fins lucrativos, ela chama para si a responsabilidade de encontrar parcerias e  também gerir o fundo de apoio à produção cinematogrática, criado na mesma época. É neste cenário que se enquadra a campanha Il faut sauve le cine Guimbi (“É preciso salvar o cinema Guimbi”), que luta pela revitalização do cinema e é umas das iniciativas centrais da Associação no momento.

Hoje, no local do Guimbi, há apenas o terreno murado, com a tela para projeção e vestígios bancos, todos feitos de cimento. Há também atrás da tela, um esqueleto da antiga sala de projeção.

photo3_menor

A proposta de revitalização pretende adquirir o terreno e nele construir duas salas de cinema cobertas, com capacidade de 172 e 323 lugares respectivamente. Além de representar o resgate de um patrimônio histórico de Bobo, a Associação entende que, uma vez restaurado, o Ciné Guimbi possa se tornar um centro de referência cultural para a sociedade local. Abrigando em sua programação, além da programação de filmes semanal, também outras atividades tais como a formação de crianças e adolescentes na área do audiovisual (“educação da imagem”, como eles dizem no projeto), e  iniciativas inclusivas multidimensionais para mulheres e outros grupos. .

photo 1_menor

Para além da programação cotidiana de filmes e atividades sócio-educativas,  há também a proposta da realização de ao menos dois grandes eventos de cinema. Um festival anual, o Guimbi Festival, realizado em parceria com diversos festivais mundiais. E, bienalmente, o Guimbi será o núcleo do FESPACO em Bobo (o FESPACO é parceiro do projeto desde 2013).

E para aqueles que desacreditam da viabilidade do projeto, os organizadores da proposta de revistalização garantem que as experiências bem sucedidas dos cinemas em salas de Ouagadougou e em cidades secundárias mostram que existe sim público para o cinema comercial em Burkina Faso. E mais: segundo eles, o caso do Ciné Guimbi é um símbolo da grave ameaça que paira sobre os cinemas na África. De tal forma que contribuir para o seu resgate é uma ação que visa manter um patrimônio que é ao mesmo tempo local e universal.

Nós do FICINE louvamos a iniciativa da Associação de Apoio ao Cinema de Burkina, na expectativa que não só o Ciné Guimbi volte a funcionar, mas que por todos os lugares onde salas de cinema estejam sendo fechadas, haja algum tipo mobilização para reversão destas situações.

Abaixo, assista algumas falas dos que vivenciaram os momentos áureos do Ciné Guimbi.

Spot Cinéma Guimbi – Les anciens se souviennent from Cinémas d’Afrique on Vimeo.

*Agradecemos a Association de Soutien au Cinéma du Burkina Faso pelas fotos e o material de projeto que serviu de base para este post.

Leia mais aqui sobre o projeto “Il faut sauve le Cine Guimbi”. Divulgue! Apoie!

Sobre o fim da SONACIB, indicamos o artigo de Gervais Hein “Burkibna: la SONACIB privatisée”, no site Africultures.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: