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Um Perfil de Sarah Maldoror

30.12.2013 | Beti Ellerson

Você ainda não ouviu falar de Sarah Maldoror (1938)? Pois bem, ela é uma das principais (e primeiras) cineastas de África e tem uma extensa obra ainda pouco conhecida no Brasil. Um dos seus principais filmes, Sambizanga (1972), retrata o papel da mulher durante a guerra civil de Angola onde a cineasta viveu durante anos. O roteiro do filme foi escrito com Mário Pinto de Andrade, poeta e militante contra o colonialismo português, autor de Primeiro Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1953) e seu marido na época. Neste post, traduzimos o artigo de Beti Ellerson para o seu blog African Women in Cinema, um dos principais canais do mundo a divulgar o trabalho de mulheres negras e africanas no cinema. Boa leitura!

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“Eu tenho um papel cultural como cineasta. O que me interessa é pesquisar filmes sobre história africana, porque nossa história tem sido escrita por outros, não por nós. Portanto, se eu não me interesso pela minha própria história, quem vai se interessar? Eu acho que é necessário que a gente defenda nossa própria história, que a gente a faça conhecida – com todas as nossas qualidades e defeitos, nossas esperanças e desesperanças.”

Sarah Maldoror (1)

Para Sarah Maldoror, Guadalupense de descendência africana, vista respeitosamente como a matriarca do cinema africano, filmar foi uma arma pela luta e liberação desde o início de suas experiências no cinema. Mas antes de embarcar na carreira de cineasta ela co-fundou o grupo Companhia de Arte Dramática de Griots em Paris no ano de 1956. Ela deixou a companhia, no início dos anos 1960, com uma bolsa de estudos para estudar cinema na União Soviética – lá ela conheceu Ousmane Sembene que também estava estudando cinema naquele momento. Depois de residir brevemente no Marrocos, em 1963, ela foi para a Argélia para trabalhar como assistente de Gillo Pontecorvo no clássico Batalha da Argélia, lançado em 1966. Seu filme de estreia Monangambee foi selecionado para a Quinzena de Realizadores em Cannes no ano de 1971. Em 1972, ela fez uma obra emblemática, Sambizanga, que relata a experiência de uma mulher durante a luta de liberação de Angola. O filme dividiu o prestigiado Prêmio Tanit d’Or no Festival de Cinema de Cartago no mesmo ano. (2)

Vinte e cinco anos depois, inspirada pelo filme Sambizanga, a togolesa Anne-Laure Folly Reimann foca sua câmera na experiência de mulheres na guerra de Angola no documentário Les Oubliées (As Esquecidas) de 1996. Em seu documentário de 1998, Sarah Maldoror ou a Nostalgia da Utopia, ela paga tributo a sua mentora, traçando sua vida e obra. Em 1997, Anne-Laure Folly Reimann homenageou Sarah Maldoror com estes comentários na conferência de imprensa da FESPACO para o filme Les Oubliées:

Sarah me inspirou a fazer esse filme. Ela fez um filme chamado Sambizanga, que em minha opinião é uma das obras primas do cinema africano. Quando eu o vi, eu quis fazer um filme sobre Angola. Ela abriu o caminho ao mostrar a guerra de libertação de Angola pela perspectiva da mulher. Meu filme não é revolucionário, ela já tinha feito isso antes. (3)

Precursora, pioneira, mentora, Sarah Maldoror continua a mostrar o caminho. Ela fez isso ao dizer numa entrevista com Jadot Sezirahiga: “Mulheres africanas devem estar em todo o lugar. Elas devem estar nas imagens, atrás da câmera, na sala de edição e envolvidas em todo o estágio de produção de um filme. Elas devem ser aquelas que falam sobre os seus problemas”. (4)

Notas

(1) Entrevista de Beti Ellerson com Sarah Maldoror, 1997.

(2) Quinzaine des Réalisateurs de Cannes, 1971.

(3) Conferência de Imprensa da FESPACO, 1997.

(4) Entrevista de Jadot Sezirahiga com Sarah Maldoror no Écrans d'Afrique/African Screens - No. 12, 1995.

Trabalhos relevantes sobre Sarah Maldoror

Analysis of Sambizanga de Michael Dembrow

Entrevista  de Olivier Barlet com Sarah Maldoror

Sarah Maldoror: Filmography and Profile

Sarah Maldoror: Le parcours de la combattante

Sarah Maldoror in Twenty-Five Black African Filmmakers de Françoise Pfaff

Assista os filmes de Sarah Maldoror!

Sambizanga, 1972. (Cartazes de New Yorker Films)

Et les chiens se taisaient, 1974

Este post é uma tradução autorizada de A Profile of Sarah Maldoror. Agradecemos à Beti Ellerson e ao African Women in Cinema Blog.  (Tradução Janaína Damaceno).

 
  

Beti Ellerson

Beti Ellerson é cineasta, pesquisadora e diretora do Centre for the Study and Research of African Women in Cinema que fundou em 2008. Desde então mantém o blog http://africanwomenincinema.blogspot.com.br um espaço de discussão sobre a mulher negra no cinema. Escreveu o livro Sisters of the Screen: Women of Africa on Film, Video and Television em 2000. As fotos de Sarah Maldoror também são de Beti Ellerson.
Outros artigos do autor:
Um Perfil de Sarah Maldoror
Por um cinema africano no feminino (III): “Um foco sobre as Mulheres Burkinabês no Cinema”*