Charles Burnett no Brasil: três filmes que você PRECISA conhecer

Vinicius Dórea

Poucos cineastas traduziram com tanta delicadeza e força as contradições da vida negra nos Estados Unidos quanto Charles Burnett. Nascido no Mississippi e criado no bairro de Watts, em Los Angeles, Burnett fez parte do grupo de jovens realizadores da UCLA que ficou conhecido como L.A. Rebellion, uma geração que decidiu reinventar as imagens sobre a experiência afro-americana e romper com os estereótipos fabricados por Hollywood. Suas histórias nasceram da observação atenta do cotidiano: pais exaustos, crianças que crescem depressa demais, máquinas que vivem quebradas e vizinhos que se ajudam (ou se atrapalham) para seguir em frente. Em filmes como O Matador de Ovelhas (1977), O casamento do meu irmão (1983) e A aniquilação de Fish (1999), Burnett combina o seu olhar profundamente humano com as experiências negras renegadas pelo cinema hollywoodiano. 

Agora, o diretor desembarca em Belo Horizonte para a 5ª Semana de Cinema Negro, onde participa, no dia 18 de outubro, de uma conversa com a curadora da programação internacional, Janaína Oliveira, no Cine Humberto Mauro. É uma oportunidade rara de ver de perto um dos grandes nomes do cinema independente americano, que construiu com delicadeza um afresco da experiência negra norte-americana. 

O Matador de Ovelhas (1977)

“O que é a América para mim? Um nome, um mapa, a bandeira que vejo? Uma certa palavra, democracia?”, canta a voz grave de Paul Robeson em uma das canções cuidadosamente selecionadas por Charles Burnett nesse filme. Em O Matador de Ovelhas, acompanhamos de forma episódica o cotidiano de uma vizinhança negra de Los Angeles, centrado em uma família que tenta sobreviver em meio ao desencanto com a promessa de democracia norte-americana. Stan, o protagonista, trabalha em um matadouro e carrega no corpo e no olhar o peso de uma vida que se repete entre a exaustão e o silêncio. Ele não rouba, não mata, não trafica, não fere ninguém e por isso não cabe em nenhum dos estereótipos racistas que recaem sobre os homens negros. Stan não é um rebelde, é um homem que ainda parece acreditar no sistema, mas cuja falta de desejo sexual denuncia o cansaço de participar desse jogo. As cenas das ovelhas indo para o abate simbolizam a traição do sonho americano feita à população negra, mas o filme não se reduz a isso.

Burnett o constrói a partir de pequenos fragmentos: crianças brincando em terrenos baldios, amigos debatendo esquemas sem futuro, motores que não funcionam, vizinhos que se cruzam em ruas sujas. Nada parece de grande importância isoladamente, mas, juntos, esses momentos revelam uma humanidade rara: uma crônica de gestos simples e emoções profundas. Tudo aquilo que Hollywood se recusava a ver.

O casamento do meu irmão (1983)

Embora não tenha a mesma notoriedade que os outros filmes, sua importância dentro da filmografia de Charles Burnett é fundamental para compreendê-lo como autor. O longa acompanha Pierce, um jovem sem rumo, enquanto anda pelos espaços que constroem seu universo: a lavanderia da família, as ruas de Los Angeles com seu amigo Soldier e as casas de seus parentes. Essa narrativa solta espelha a própria falta de direção do protagonista. Seu conflito interno atinge o ápice quando o funeral de Soldier é marcado para o mesmo horário do casamento de seu irmão. Na tentativa frustrada de comparecer aos dois eventos, Pierce acaba não indo para nenhum dos dois. 

O filme não segue a estrutura narrativa de O Matador de Ovelhas e apresenta apenas um protagonista como condutor individual da história. Porém, os outros membros da família encarnam as ideologias presentes no tecido social americano, em que Pierce entra em conflito. Seu irmão está se casando com uma jovem negra rica e os embates causados por isso aparecem nos diálogos ácidos das reuniões familiares. O clímax dessa disputa se materializa no dilema entre o funeral e o casamento, dois rituais fundamentais da cultura norte-americana. 

A aniquilação de Fish (1999)

Uma comédia romântica sobre um homem negro chamado Fish que acredita viver em guerra com um demónio e Poinsettia, uma mulher branca que conversa com o fantasma do compositor italiano Puccini. A história se passa em uma pensão de Los Angeles, o que cria uma história dedicada a se aproximar da experiência do que é envelhecer e das relações que esse envelhecimento produz entre as pessoas. De certa forma, é possível criar um paralelo entre as crianças de O matador de ovelhas e os personagens idosos de A aniquilação de Fish, no sentido de que existe uma escuta muito atenta a essas pessoas que, por serem muito novas ou muito velhas, não obedecem aos esquemas de vidas funcionais dentro da sociedade.

Na superfície, o filme parece se afastar das tensões sociais que atravessam os outros dois filmes citados, mas a forma como Burnett aborda o amor na velhice, mas também a loucura e a solidão, mantém o seu cinema profundamente político. Mesmo com esse desvio de tom dentro da cinematografia do diretor, ele reafirma sua posição singular no cinema negro: a de um autor que transforma a experiência marginalizada em poesia.

Confira a programação completa da Semana de Cinema Negro de BH aqui.

Publicado por FICINE

O FICINE tem por objetivo a construção de uma rede internacional de discussões, projetos e trocas que tenham como ponto de partida e ênfase a reflexão sobre os Cinemas Negros na diáspora e no continente africano.

Deixe um comentário