Vinicius Dórea
“Na roda do mundo,
mãos dadas aos homens ,
lá vai o menino
rodando e cantando
cantigas que façam
a vida mais doce
cantigas que façam
os homens mais crianças”
Trecho de “Cantiga Quase de Roda” de Thiago de Mello
Como medir uma vida? Por poesia? Por dores? Por conquistas? Por tudo isso junto? Aparentemente essas são perguntas que somente quem carrega uma vida inteira de experiências consegue responder. Ruth de Souza, grandiosa atriz brasileira, estaria hoje, no dia 12 de maio, completando 104 anos de idade e de muitas histórias para contar. Ela, que foi a primeira atriz brasileira a ser indicada a um prêmio internacional, no festival de Veneza em 1953 por seu papel em Sinhá Moça, se empenhava bastante para contar a história de sua vida. Como se fosse um exercício de memória, Ruth aceitava todos os convites para entrevistas, publicações de livros e produção de filmes sobre a sua trajetória como atriz. Até o fim da sua vida, em 2019, ela esteve diante das câmeras, exercitando seus talentos e lembrando do passado. E fez isso pela última vez em parceria com Juliana Vicente no documentário Diálogos com Ruth de Souza (2022).
Em determinado momento do filme, Ruth tenta lembrar de cabeça o poema de Thiago de Mello que abre este texto. A declamação vem logo após ela se lamentar que não consegue mais andar por causa da sua idade. Considero esse momento do filme de uma beleza tão singular, pois o que temos ali é a recompensa de uma vida inteira vivida através da ótica da arte. Ruth se apega à poesia até quando suas pernas não a obedecem mais. De certa forma, foi a arte que carregou o seu corpo pelo mundo e agora, na velhice, é o que continua o sustentando.
De todas as histórias que foram contadas durante os 100 minutos do filme quero destacar a parceria que Ruth teve com Abílio Pereira de Almeida, diretor de Candinho (1954). Ruth interpretaria Bastiana, logo após ter feito Terra é Sempre Terra (1951) e também ter interpretado uma personagem chamada Bastiana nesse filme. Muito questionadora Ruth pergunta ao diretor se não havia outro nome para a personagem, no que ele diz: “Toda negra se chama Sebastiana”. Ela retruca: “Toda negra não, eu me chamo Ruth!”. E assim a personagem recebeu outro nome, escolhido pela própria Ruth. Foi nessa ousadia que a nossa estrela conseguiu superar as barreiras racistas e fazer um nome para si mesmo.
Ruth foi pioneira em diversos momentos da sua carreira. Foi a primeira atriz negra a se apresentar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Também foi a primeira atriz negra a protagonizar um filme no Brasil, “Sinhá Moça” (1953), dirigido por Tom Payne. Por essa atuação, foi a primeira atriz brasileira indicada a um prêmio internacional de cinema: o Leão de Ouro de Veneza. Foi a primeira atriz negra a protagonizar uma telenovela na Rede Globo em A Cabana do Pai Tomás (1969). No teatro interpretou a primeira Desdêmona negra do Brasil. No filme de Juliana Vicente, quando perguntada se era isso tudo que almejava para sua carreira, Ruth diz que ela só queria mesmo trabalhar e não buscava o estrelato. Mas por toda a vida ela constantemente se perguntava: “O que eu quero? Como é que vou conseguir isso? Como é que vou chegar onde quero?”. Ruth de Souza, a nossa dama negra da dramaturgia, era uma pessoa alinhada com o seu desejo e fez o que lhe mandava o coração.
Gosto de imaginar a quantidade de meninas negras dos anos 60 e 70 que viram a imagem de Ruth na televisão e se chocaram com a possibilidade de viverem outra configuração de vida. Uma que as permitissem sonhar. Sobre a sua infância, Ruth disse: “As pessoas não acreditavam que uma menina negra tivesse sonhos – e quando digo isso é a pura verdade. Não acreditavam que eu pudesse ter sonhos.” Essa vontade de realizar foi alimentada por sua mãe, Alaíde Pinto de Souza, que nasceu no Rio de Janeiro e se mudou para Minas Gerais após se casar. Alaíde contava para Ruth como as ruas do Rio de Janeiro eram iluminadas e limpas e como ela sentia falta de morar lá. A pequena Ruth então tentava colocar vagalumes em fileira para recriar as ruas desse Rio de Janeiro falado por sua mãe, mesmo sem ainda ter ido lá. Já estava ali uma atração pela representação, pelo palco. Uma instiga em fazer teatro.
Em Diálogos com Ruth de Souza, além de presenciarmos 10 anos de conversas com a nossa estrela negra, a diretora Juliana Vicente escolheu criar momentos ficcionais de uma mulher que caminha, encontra companheiras e atravessa obstáculos. Apesar de Ruth chegar nos últimos anos da sua vida sentada em uma cadeira de rodas, prefiro me apegar à imagem de Ruth como uma mulher que caminha, que atravessa e rasga. Ruth recontava a história da sua vida como afirmação do seu trabalho e como possibilidade de perpetuação. A sua existência será lembrada por gerações a vir como uma mulher que sonhou o seu lugar no mundo. Termino essa homenagem à nossa grande dama com o epitáfio do poema citado por Ruth no filme e que inicia esse texto: “O canto desse menino talvez tenha sido em vão. Mas ele fez o que pôde. Fez sobretudo o que sempre lhe mandava o coração”.
