Residências artísticas, sala de cinema e audiovisual feito em roda, conheça o iAMO

“Somos o vento que sopra sua cria pro topo do mundo”. A frase que aponta as linhas de força desse projeto já indica, em suas palavras e textura, que estamos diante de uma organização audiovisual pensada a partir de outros registros de produção e partilha de ideias. Foi com esse vento que se materializou, no segundo semestre de 2024, o Instituto Audiovisual Mulheres de Odun, ou apenas iAMO, um projeto que já existia desde 2010, mas se torna anos depois um espaço concreto que nasce de dentro da comunidade do Coqueiro Grande, adjacente ao bairro de Cajazeiras, em Salvador, com o objetivo de ser um lugar de formação e compartilhamento de experiências audiovisuais.

“Podemos definir o iAMO como um impulsionador de narrativas, de crias (profissionais) e de criações (projetos). Quando pensamos sobre qual seria o propósito do Instituto, entendemos que as energias de Irókó (Tempo) e Oyá estavam muito presentes, e que nosso objetivo de existência era inspirado por essas energias manifestadoras, formadoras e emancipadoras”, define Viviane Ferreira, cineasta e diretora criativa do projeto (na imagem acima, ao centro). 

Ao lado de Bruna Anjos, Gustavo Ferreira, Camilla Prado, Shirlene Reis, Jucimara Cruz e da comunidade de Coqueiro Grande, Viviane vem coordenando as atividades no iAMO, como a residência imersiva de roteiro que já aconteceu no espaço, além de estar à frente da sala de cinema que o espaço inaugurou recentemente, o CineLankiana. Segundo ela, “a sala é resultado do fomento da Lei Paulo Gustavo/BA e já nasce com o compromisso de ampliar a presença de telas em espaços culturais, fora de shopping centers, nas periferias da cidade. Nossa programação está sendo pensada alinhada com os lançamentos dos cinemas independentes nacional e internacional, buscando manter um diálogo com as produções comerciais que atraem os públicos à sala de cinema, em um ambiente capaz de ofertar filmes com inovações narrativas e estéticas capazes de alimentar os processos de experimentações do nosso público.”

No que diz respeito às residências artísticas, é importante frisar dois elementos. Primeiro, no Brasil, a ideia de residência está com frequência mais associada ao campo das artes visuais, o que coloca o iAMO à frente de uma outra proposta de formação em audiovisual. Segundo, essas residências são pensadas de dentro de uma lógica do território, no sentido de que é a partir das especificidades dessa comunidade do Coqueiro Grande, ou seja, de sua forma de organização social, seus afetos e trocas, que as práticas de imersão são criadas. Ou, nas palavras de Viviane, “somos do território, estamos no território e construímos com o território.”  

Sobre a primeira experiência de troca, ela avalia que o resultado foi bastante positivo. “A primeira turma de residentes nos deixou muito felizes, nos sentimos atingindo a meta dos 100% de aproveitamento, uma vez que todos os projetos cumpriram todas as etapas sugeridas, e saíram do processo de residência transformados e amadurecidos, prontos para galgar oportunidades de produção. Não enfrentamos nenhuma situação de desistência durante o processo, e em diálogo com outras residências entendemos o quanto esse marco é importante. Amadurecemos os nossos protocolos de recebimento de residentes e vivemos uma semana de inspiração potente.”

Ao todo, durante essa primeira residência, foram seis projetos na roda, e 11 residentes (apenas um deles participando de modo online). A residência durou quatro semanas, e os diálogos iAMO reuniu 27 convidados, sete painéis sobre as sete artes, e quatro rodas de conversa entre diferentes residências artísticas.

Para Janaína Oliveira (FICINE) que acompanhou de perto todo processo de gestão e concretização do iAMO e esteve na semana de inauguração da da primeira residência moderando debates e participando de uma mesa redonda, “o iAMO aponta de forma desbravadora para caminhos originais para a produção de cinema independente no Brasil”. “Modos de fazer, pensar e ver cinema permeados de forças de pertencimento, território, espiritualidade e muito afeto. É muito impressionante não só a estrutura montada por Viviane, mas o cuidado em cada detalhe que vai da arquitetura, à decoração e que se desdobra na proposta das atividades realizadas. É mesmo incrível. Todes deveriam ir no iAMO para ver, viver e se inspirar”, diz Janaína (na foto abaixo).


O FICINE também já esteve presente no iAMO com uma edição do Políticas do Olhar, com a participação do curador martinicano Wally Fall e com uma sessão do filme L’homme vertige: contos de uma cidade, da diretora de Guadalupe Malaury Paisley. Ambas atividades aconteceram durante a IV edição do FIANB – Festival Internacional do Audiovisual Negro da APAN. 

Importante dizer que, em 2025, o instituto voltará a trabalhar com as práticas imersivas enquanto, simultaneamente, pensa propostas de programação e curadoria para sua sala de cinema: “2025 é ano de consolidação dos nossos processos alicerçantes. Teremos nova edição da residência iAMO, e trabalharemos na construção de relação entre o CineLakiana e seu público”, garante Viviane. 

Publicado por FICINE

O FICINE tem por objetivo a construção de uma rede internacional de discussões, projetos e trocas que tenham como ponto de partida e ênfase a reflexão sobre os Cinemas Negros na diáspora e no continente africano.

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