Vinícius Dórea
Um festival de cinema de tradição estabelecida, cuja força se produz nos laços de criação e pensamento dentro do território africano e para além dele. Um festival que não precisa pedir licença a ninguém. Menos ainda para as chancelas do Norte Global de como esse cinema deve existir, resistir e co-existir com a comunidade. O Fespaco, que acontece desde 1969, dá largada a mais uma edição neste 22 de fevereiro de 2025, desta vez com uma forte presença de filmes brasileiros na sua programação oficial. Janaína Oliveira, curadora, membra do FICINE e longa frequentadora e parceira do Fespaco, conversa um pouco sobre as particularidades do festival e a importância de construir novas pontes entre o cinema brasileiro e o cinema feito em África, e fala sobre as conversas que ela está ajudando a promover este ano durante o evento.
FICINE – O Fespaco é um dos primeiros festivais do continente africano e o maior existente hoje na África. Porém as pesquisas sobre o festival são escassas, principalmente em português. O que você pensa sobre essa ausência e por que ela acontece?
Janaína Oliveira – Primeiro, a gente precisa ter uma leitura mais ampla tanto sobre os estudos africanos de modo geral, da história e cultura africana, quanto sobre os estudos sobre o cinema africano também. No Brasil, o campo de estudos africanos, não sobre cinema especificamente, mas sobre a África, no geral, é muito recente. Em grande parte esses estudos se restringiram a uma África Lusófona, ou seja, sobre Angola e Moçambique, majoritariamente. Até temos alguma coisa sobre Cabo Verde, mas pouquíssima coisa sobre São Tomé e Príncipe. No campo do cinema, os estudos sobre cinema africano também são muito recentes. Essa ausência se dá também por conta da barreira linguística, porque o FESPACO está na África do Oeste e grande parte das reflexões feitas lá são em francês ou em inglês. Quando o FESPACO fez 50 anos, a Black Camera, uma revista estadunidense de Indiana University Press, fez uma edição comemorativa de três volumes sobre o Festival. Mas isso foi há 5 anos. Então acho que tem uma coincidência entre a questão da barreira linguística e o quão recente é o campo de estudos de cinema africano no Brasil que aí se coincide também com o campo de estudos de cinema de história e cultura africana, de um modo geral. E ainda o fato que se sabe muito pouco sobre cinemas africanos aqui no Brasil. De uma forma mais analítica do ponto de vista histórico, você tem alguns estudos sobre filmes, sobre algumas características, como as tradições orais. Mas ainda é um campo de pesquisa bastante novo. São pouquíssimas pesquisadoras e pesquisadores que se dedicam a estudar cinemas africanos. Mas vem crescendo o interesse das pessoas sobre os festivais no continente e sobre a história do FESPACO. Esse ano o FESPACO recebeu um número inédito de filmes brasileiros e alguns deles chegaram na seleção oficial. Mas foram muito mais filmes recebidos do que, obviamente, os que estão ali. Então isso é bacana também.
FICINE – Você enxerga o Fespaco como uma ponte transatlântica entre os africanos e os afrodiaspóricos? E o que acha que o festival tem a ensinar sobre cinema para o nosso país?
Janaína Oliveira – Vou responder a essa pergunta falando como eu tomei conhecimento da existência do FESPACO. A primeira vez que fui ao FESPACO foi em 2011, então soube da existência do festival, provavelmente em 2007 ou 2008, quando comecei a frequentar o Encontro de Cinema Zózimo Bulbul e vi o Zózimo falar. O Encontro estava sempre falando como esse festival de cinema na África era uma coisa incrível. Falavam que a abertura e encerramento aconteciam em um estádio de futebol. Também falavam que era uma cidade inteira respirando cinema e pessoas de todo o continente reunidas. Eu tenho uma história muito linda que soube através do diretor do Pan-African Film Festival (PAFF), que acontece em Los Angeles. O nome dele é Ayuko Babu, e ele me falou que a primeira vez que ele conheceu o Zózimo foi em uma praça chamada Praça dos Cineastas que fica no centro de Ouagadougou. Essa praça tem uma escultura que são rolos de câmera empilhados, mas também parece uma câmera ou uma bateria antiaérea transmitindo essa ideia de que o cinema realmente é uma arma. Na frente dessa escultura, tem uma fila de esculturas de cineastas, a começar pelo Ousmane Sembène, que nunca ganhou o prêmio principal, mas é ele segurando o Étalon d’or de Yennenga, que é o prêmio principal do FESPACO. Depois tem algumas estátuas enfileiradas de alguns cineastas mais antigos. O Ayuko Babu (foto abaixo) me contou que conheceu o Zózimo sentado aos pés da estátua do Sembène. Bom, eu penso nessa história para responder essa pergunta sobre o FESPACO ser uma ponte. O FESPACO é uma ponte transatlântica e eu aprendi muito com ela. Há uma questão pan-africana muito bonita no festival, que está na origem do Prêmio Paul Robeson. Então essa ponte diaspórica carrega uma história muito forte, mas que com o passar dos anos foi se desarticulando, principalmente por causa do assassinato do Thomas Sancara. Nos últimos anos, nossa presença lá vem fortalecendo essa conexão do Brasil com o Festival. Venho trabalhando para articular no festival a presença das diásporas no geral e não só a presença do Brasil. Retomar o prêmio Paul Robeson foi um passo importante por que nós destacamos a sua relevância histórica e simbólica. Mas também estamos pensando nas articulações contemporâneas, nos esquemas de coprodução entre a África e as diásporas. Então o FESPACO continua sendo essa ponte transatlântica que tem tudo para se expandir e fortalecer ainda mais essa história. Lélia González já foi para o festival provavelmente em 1989 ou em 1991. O filme Ôri, da Raquel Gerber, ganhou o segundo prêmio Paul Robeson. O Joel Zito Araújo também já ganhou o Prêmio Paul Robeson quando o FESPACO fez 50 anos. Então, usando a expressão da Beatriz Nascimento: tem muita transatlanticidade nessa história entre o FESPACO e os cinemas de diásporas.

FICINE- Quais são os desafios do Fespaco para manter sua relevância e influência frente à crescente globalização do cinema e às mudanças nas plataformas de distribuição?
Janaína Oliveira – Antes de tudo é preciso dizer que o FESPACO é uma tradição estabelecida. Ele não precisa lutar para manter sua relevância porque ele já é relevante. Frequento o FESPACO desde 2011, então agora em 2025 serão 14 anos e 7 edições que eu participo e algo de muito bonito que acontece no FESPACO é que o festival parece uma reunião de família. Eu sinto que eu tenho uma família de cinema que se encontra a cada dois anos em Ouagadougou. E sempre que nos encontramos é como se a gente tivesse se visto todos os dias nesses dois anos. É um lugar onde estão pessoas de diferentes gerações. Há pessoas que chegaram lá, como eu, mais novas, e pessoas que já estão lá há 30 anos fazendo isso. A June Givanni, por exemplo, que é fundadora do Pan-African Cinema Archive, vai no FESPACO desde os anos 80. Esse ano ela estará comemorando 40 anos de FESPACO. O FESPACO tem uma relevância que se perpetua, porque ele tem muita história. Porém ele passa por questões que todos os festivais de cinema do sul global não hegemônicos enfrentam, que é a luta por financiamento. O FESPACO é uma iniciativa do estado, então, a situação política do Burkina Faso influencia na realização do festival. O novo presidente interino, Ibrahim Traoré, que assumiu o poder há três anos atrás, tem uma posição supercrítica em relação à França, então o país vem construindo uma aliança política com o Mali, Níger, Chade, no sentido de embargar de vez a dominação francesa na economia e nas dinâmicas culturais, e isso, obviamente, impacta na receita do festival. Por outro lado, do ponto de vista da indústria, o FESPACO vem melhorando, principalmente por causa da chegada do Alex Moussa Sawadogo na direção do festival, que vem modernizando todos os debates nos setores de indústrias e trocas. Então, o FESPACO vem se fortalecendo como esse lugar onde todo mundo quer estar porque carrega muita tradição e história, mas também por que é um lugar interessante para pensar negócios de cinema. Além do MICA, o Mercado Internacional de Cinema Africano, tem também o Yennenga Coprodução, que são laboratórios de coprodução, tem uma sessão que se chama FESPACO PRO, tem o Yennenga Connection, que reúne uma série de debates, inclusive onde vou estar moderando três mesas redondas.
FICINE – Quais são essas mesas?
Uma mesa será sobre o Prêmio Paul Robeson, falando sobre o presente, passado e futuro dessa celebração da presença da diáspora. Outra mesa redonda será um estudo de caso sobre os acordos de coprodução entre o Brasil e a Nigéria e o Brasil e a África do Sul. Essa contará com representantes do Ministério da Cultura da Nigéria, representantes do National Film & Video Foundation (NFVF) da África do Sul e com a presença da Tatiana Carvalho, como membro do Conselho Nacional de Cinema. E uma última mesa sobre as circulações de filmes das diásporas em que a gente vai ter representantes de festivais e distribuidores fazendo essa conversa.
FICINE – Qual o impacto que o Fespaco teve sobre a sua visão pessoal de cinema?
Janaína Oliveira – Bom, vamos lá. Eu e o FESPACO, o FESPACO e eu. Assim como o encontro com o Zózimo foi uma virada de chave na minha trajetória e a minha vida se divide entre antes e depois do Zózimo, creio que o FESPACO também representa essa virada de chave na minha vida. Então, ir para o FESPACO, presenciar essa história e poder falar e escrever sobre o festival aqui no Brasil foi muito importante mesmo pra mim. Foi no FESPACO que conheci pessoas que realmente mudaram minha vida. Durante muitos anos da minha vida em Ouaga, eu passei muito tempo com o cineasta de Burkina Faso, Idrissa Ouédraogo, acompanhando ele nas dinâmicas do dia a dia, e conhecendo Ouagadougou. Idrisso, infelizmente, faleceu em 2018, de desgosto, por não conseguir mais fazer filmes. Mas, enfim, passei muito tempo com o Idrissa e ele me contava a história dos cinemas africanos através da experiência dele, me contando todas as dinâmicas e fazendo análises críticas. E também como já tive a oportunidade de conversar muito com outros cineastas dessa geração mais recente e também da geração do Ousmane Sembéne. Já passei muito tempo com o Souleymane Cissé, com o Gaston Kaboré, com o Cheikh Oumar Sissoko. O Cheikh Oumar mais no Rio de Janeiro do que em Burkina Faso. Também conheci Pedro Pimenta, que é um produtor moçambicano que foi consultor da Unesco para um grande dossiê sobre os cinemas africanos. Também convivi com a June Givanni, que é um acervo vivo dos cinemas da África e da diáspora. Inclusive, minha pesquisa de pós-doutorado dialoga com o acervo dela. Tem também a Jihan El-Tahri, uma cineasta do Egito, que é também uma grande produtora de cinema e professora. Também entrevistei Moussa Sene Absa e Alain Gomis, cineastas do Senegal. Aprendi sobre os cinemas africanos vivendo o FESPACO. Como diz a frase: “Quando amamos o cinema, vivemos o FESPACO”. Então, o FESPACO é uma mudança na minha vida e estou muito feliz em estar indo novamente para o Ouagadogou este ano e viver mais uma semana de alegrias, emoções e muito cinema. Cinema de manhã, de tarde e de noite, junto com a comunidade dos cinemas africanos e pan africanos que se encontram na cidade.
