A longa viagem de Soulaymane Cissé

Janaína Oliveira

Quando em 1969 Soulaymane Cissé terminou seus estudos de cinema no Instituto VGKI em Moscouhavia, havia se passado apenas três anos do lançamento de La noire de… filme de Ousmane Sembène que é considerado o primeiro longa metragem feito por um realizador negro africano. No ano seguinte, Cissé retornou para o Mali, sua terra natal, dando início efetivamente ao trabalho com cinema, primeiramente como cameraman e repórter, realizando filmes no interior do país para o Serviço Cinematográfico do Ministério de Informação, para depois ingressar na carreira de cineasta e, posteriormente, de produtor ao fundar em 1977 a companhia Les Films Cissé (Sisé Filimu).

A experiência cinematográfica do diretor malinês está diretamente ligada às diretrizes que caracterizam as primeiras décadas de surgimento do cinema africano, isto é, um cinema feito por africanos, com temas africanos, para um público africano, tal como definido por Manthia Diawara, professor e estudioso, conterrâneo de Cissé e um dos maiores especialistas nas cinematografias do continente. Tal como se observa na obra de Sembéne, a prerrogativa central para Cissé era criar um repertório de imagens e histórias que se contrapusessem ao universo de representações negativas sobre o continente que tradicionalmente povoam o repertório das imagens eurocêntricas. “Os que vieram filmar aqui jamais mostraram as pessoas como seres humanos. Eles nos filmaram de qualquer maneira (….). O cinema dos brancos mostra que os africanos não pertencem à comunidade humana, que são como animais. Filmaram rios com mais respeito!”, afirmou Cissé de maneira contundente em 1991, na entrevista para série documental Cinéastes de notre temps, do diretor cambojano Rithy Panh. Exibir as injustiças e mentiras que as imagens produzidas sob a égide do olhar do colonizador, que durante décadas perpetuaram estereótipos negativos e estanques sobre as culturas africanas, tal a tarefa dos cineastas desta geração.

Em entrevistas diversas, concedidas em diferentes momentos de sua carreira, Cissé aponta o contexto da luta contra a dominação colonial como origem central de seu desejo em se tornar cineasta. Ainda que o cinema seja uma paixão desde a infância, o cineasta afirma que momento exato em que optou por fazerdo cinema seu métier foi ao assistir um documentário sobre a prisão de Patrice Lumumba, líder político que promoveu a luta de independência do Congo em 1960. A violência das imagens de Lumumba amarrado, a forma como foi brutalmente tratado, foi determinante para o então jovem estudante decidir fazer do cinema uma arma contra as forças coloniais que mesmo após as independências se faziam presentes nas relações políticas, econômicas e, sobretudo, culturais. A descolonização das telas, chamada levantada pelo crítico tunisiano Tahar Cheriaa, fundador da Jornada Cinematográfica de Cartago, que junto com Sembène protagoniza a articulação política desse primeiro momento do cinema africano, é assumida por Cissé como missão. Daí seus primeiros filmes serem reconhecidos como políticos e, por vezes, até pedagógicos.

Na mostra inédita que agora o IMS traz para o Brasil, estão presentes alguns desses filmes, mais precisamente, dois curtas metragens, Sources d’inspiration (Fontes de inspiração) de 1968 e Chanteurs traditionnels des îles Seychelles (Cantores tradicionais das Ilhas Seycheles) de 1975, juntamente com dois de seus longas metragens mais consagrados, a saber, Baara (O trabalho, cena do filme na imagem abaixo) de 1978 e Finyé (O vento) de 1982. Baara, segundo longa metragem do diretor, foi ganhador do prêmio de melhor filme da edição de 1979 do Fespaco, Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou, em Burkina Faso, maior festival do continente e o segundo mais antigo, só não mais antigo que o já citado festival de Cartago. Proeza repetida em 1983 com Finyé, fato até então inédito na história do Festival.

Com Yeelen (A luz), terceiro longa do diretor presente na Mostra do IMS,Cissé apresenta um novo caminho narrativo, que segundo críticos e comentadores do cinema africano, o afastaram do cinema das narrativas sociais realistas ao estilo sembéniano. O filme se desenvolve universo dos rituais Komo, pertencentes a um código cultural específico da cultura malinesa, trazendo para telas do cinema africano outra abordagem do tempo e dos espaço em relação às tradições locais. Yeelen (imagem abaixo) inaugura uma série deproduções com longos planos com som natural, com closes que enaltecem a beleza dos personagens e suas tradições sobretudo no período anterior a chegada dos colonizadores europeus. Esse estilo narrativo, que Diawara chama de “retorno às origens”, vai caracterizar as obras da segunda geração de cineastas africanos,como nos filmes dos burkinabés Gaston Kaboré e Idrissa Ouedraogo. Contudo, uma crítica recorrente a esta geração é que o afastamento da crítica política e social tornariam os filmes mais próximos ao gosto das plateias ocidentais. Fato é que o filme ganhou o grande prêmio do júri no Festival de Cannes em 1987, feito também até então inédito na história do cinema africano, dando a Cissé o reconhecimento fora do continente africano.

“Se Yeelen é diferente de Finyée Baara”, diz Cissé em entrevista a Frank Ukadike em 1997 duranteo Fespaco, “pode ser porque acima de tudo diferentes impulsos dirigem cada criação. A mudança de estilo pode ser deliberada. Depois que fiz Finyée Baara, eu fui rotulado de cineasta político e alguns diziam que meus filmes eram muito didáticos. Mas um artista deve ter a liberdade de experimentar com tema, conteúdo e estratégia narrativa”. A fala do diretor, três décadas após o seu debut como cineasta, revela também a transição de sua cinematografia que dialoga com diferentes momentos da produção de filmes na África. “Cada filme meu é uma longa viagem”, afirmou certa vez o cineasta.

Janaína Oliveira e Soulaymane Cissé no Fespaco de 2023

Texto publicado originalmente para a mostra sobre Soulaymane Cissé no IMS, em São Paulo.

Publicado por FICINE

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