Paul Robeson e os debates sobre cinema diaspórico no FESPACO

No próximo dia 22 de fevereiro começa, em Ouagadougou, capital de Burkina Fasso, uma nova edição do mais importante festival de cinema do continente africano: FESPACO. Uma edição que, precisamos ressaltar, tem uma importante e histórica presença brasileira em sua programação oficial. No festival, serão exibidos o aguardado longa de ficção de Antônio Pitanga (na competitiva de longas), Malês, e os curtas Deixa, de Mariana Jaspe, Zion, de Licínio Januário (ambos na competitiva de curtas), Jussara, de Camila Ribeiro (na competitiva de animação), Quem é essa mulher, também de Mariana Jaspe (na competitiva sessão Semana da Crítica), Othelo, o Grande, de Lucas Rossi (na não-competitiva sessão Panorama) e Origem, de Emília Sanchez (na não-competitiva sessão Fespaco VR). Trata-se de uma presença importante de ser celebrada no Brasil. Por que? Um pouco de história:

Criado em 1969, o festival começou somente nos anos 1980 a debater a presença de filmes da diáspora africana em sua programação. Esses debates levaram à criação do Prêmio Paul Robeson em 1989, como uma iniciativa para contemplar filmes diaspóricos, ou seja, de realizadores negros fora do continente. A foto abaixo, com a presença de Haile Gerima, diretor, a pensadora brasileira Lélia González e a diretora senegalesa Safi Faye, possivelmente tirada no FESPACO de 1989, é uma prova dessas conversas pan africanas. A imagem é do acervo do próprio Gerima enviada para Janaína Oliveira, cuja pesquisa de pós-doutorado em andamento é sobre este tema.

No entanto, após o assassinato de Thomas Sankara, líder político de Burkina Fasso, todos esses esforços se dissiparam gradualmente e, ainda que o prêmio continuasse a existir, sua relevância histórica e política se esvaziou.

Lutar pela presença desses filmes na programação do festival se tornou, em tempos mais recentes, uma questão importante não somente para realizadores diaspóricos vivendo no Norte Global, mas sobretudo para um território como o Brasil, que vem lutando por políticas públicas que contemplem realizadores negros.

Foi somente em 2023, na última edição, que uma nova iniciativa de integração foi tomada por meio da Conferência “A presença das diásporas no FESPACO”. O objetivo foi não apenas retomar as perspectivas históricas desse processo, mas também desenvolver um plano de ação para fortalecer a presença de cineastas e festivais da diáspora e de agências de financiamento, estimulando redes de acordos de cooperação internacional.

Cineastas e pesquisadores diaspóricos estiveram presentes no festival em 2023, assim como as seguintes instituições: SPCine Sociedade Cinematográfica e Audiovisual de São Paulo (Brasil), Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul (Brasil), MUICA – Festival de Cinema Africano da Colômbia, Toronto International Film Festival (Canadá), Festival Diasporama (Martinica) e African Film Festival New York (EUA).

Quem foi Paul Robeson? (e por que o prêmio que leva seu nome é tão importante para o FESPACO)

No fim de 1925 (leia-se, 100 anos atrás), Oscar Micheaux, precursor diretor negro estadunidense, lançava aquele que seria um dos seus filmes mais disputados criticamente: Body and soul. Em português: Corpo e alma. O filme marca a estreia de Paul Robeson no cinema e nele o ator é ao mesmo tempo um ex-presidiário que se passa por um pastor para abusar da fé de uma comunidade, além de iludir e estuprar uma moça dessa congregação, mas também interpreta o irmão gêmeo desse sujeito, o rapaz pobre e inocente da história. Um clássico absoluto do cinema negro justamente por mostrar as várias camadas o que a humanidade é capaz de revelar.

O fato é que depois disso Robeson se tornaria o primeiro protagonista negro em filmes comerciais nos EUA, alguns deles sucessos de bilheteria pra época, vale ressaltar. Mas não só isso. Foi ator de teatro, cantor e no ápice de seu sucesso, se tornou um ativista político contra o fascismo e o racismo naquela “Nação” cujo nascimento se fundava sobre bases supremacistas. Robeson foi duramente perseguido pelo macartismo, e sabe-se que o arquivo com os dados de vigilância sobre ele é, até hoje, um dos mais extensos já produzidos pelo FBI sobre um artista.

A proposição de Gerima de ter Paul Robeson no nome de um prêmio para o cinema negro feito fora do continente africano, mas profundamente afetado pelas violências coloniais que sangraram esse mesmo continente, é uma forma de lembrar que o gesto político é indissociável do cinema.

Em 2025, o prêmio Paul Robeson voltará a ser a celebração da presença das diásporas no Fespaco e será anunciado na mesma cerimônia de premiação dos principais prêmios do festival, no dia 1º de março. O júri é composto por Nataleah Hunter-Young (programadora do Toronto Internacional Film Festival) como presidente, o programador independente anglo-francês Themba Bhebbe e o cineasta Franco-burkinabé Fabien Dao.

Além dele, o evento contará com debates que vão reunir profissionais e pesquisadores do audiovisual para pensar diálogos diaspóricos que vão discutir: o passado, presente e futuro da própria ideia do prêmio Paul Robeson, experiências concretas de co-produção entre Brasil e Nigéria e Brasil e África do Sul e circulação de filmes africanos fora do continente africano.

Janaína Oliveira, membra do FICINE e uma das curadoras do FESPACO, é quem desde 2023 organiza os debates sobre a presença das diásporas no Fespaco e o Prêmio Paul Robeson.

Publicado por FICINE

O FICINE tem por objetivo a construção de uma rede internacional de discussões, projetos e trocas que tenham como ponto de partida e ênfase a reflexão sobre os Cinemas Negros na diáspora e no continente africano.

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