Cristina Amaral: tensionar imagens, criar mundos.

Vinicius Dórea

Friccionar imagens. Gerar faíscas. Contar o mundo, suas contradições, impurezas, incompletudes e belezas. A partir disso poder transformar a vida, o tempo e suas possibilidades. Esses gestos políticos que se encontram no trabalho de montagem feito por Cristina Amaral atravessam a história do cinema brasileiro e nos movem a celebrá-los na chegada desses quase 40 anos de carreira da realizadora. Através de parcerias que firmou durante a sua vida com diretores consagrados como: Raquel Gerber, Andrea Tonacci, Carlos Reichenbach, Edgard Navarro, Adirley Queiroz, etc, Cristina pôde esculpir um novo olhar através dos processos de junção, justaposição e aglutinação sobre as imagens. 

O gesto político de Amaral se encontra também nas escolhas profissionais que realizou e no tipo de cinema que decidiu montar. Se mantendo fiel aos seus princípios, Cristina, em 2020, recusou o convite da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para ser uma das votantes do Oscar. Justificou a recusa por falta de tempo para exercer a função apropriadamente. “Eu não abdicaria do que considero urgente, que é a sobrevivência do cinema brasileiro”, disse ela. 

Somente este ano Cristina Amaral recebeu homenagens nos festivais Cabíria e forumdoc.bh, na 14ª Mostra de Cinema e Direitos Humanos, realizada pelo Ministério da Cultura, além de mostras pontuais como uma na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre (a pontuar que em 2023 ela também foi a homenageada da Goiânia Mostra Curtas). Esses tributos são importantes por celebrarem em vida o trabalho de uma mulher negra que não está na posição de direção, mas sim de montadora. A montagem de Cristina segue um fluxo muito sincero, que parece partir dela mesmo e de uma conversa e encontro com as imagens e com os realizadores com quem ela trabalha.

Eis aqui cinco exercícios de montagem em sua carreira que consideramos aulas:

Serras da desordem, de Andrea Tonacci: está nesse filme de 2006, montado para seu parceiro de vida Andrea Tonacci, um dos seus mais primorosos trabalhos. É latente a confiança posta nas imagens em conversar com o espectador, entortá-lo, levá-lo à vertigem. A sequência inicial de 20 minutos nos instiga a viver com o povo Awá-Guajá, na Amazônia. A montagem dilata o tempo e somos desafiados a estar presentes. Somos lembrados, sem o uso de palavras, que a existência dos povos indígenas representa uma ameaça ao liberalismo econômico. O tempo das suas vidas não são baseadas no lucro e no aproveitamento. O capitalismo ali só existe como ameaça, não como vivência. A serenidade dos planos, acompanhados por um som de flauta que se assemelha ao apito de um trem, nos colocam em outro regime de tempo. É interessante pensar que na montagem do filme a imagem de um trem, símbolo inaugurante do cinema,  representa a ideia do falso progresso capitalista atrelada à destruição do planeta. E em nome do progresso derrubam-se árvores e presidentes, abrem-se estradas e alas de escola de samba e explora-se pessoas e bichos. Em uma sequência de 4 minutos em Serras da Desordem a brilhante montagem de Amaral, juntamente com a direção de Tonacci, resume um país, não em uma tentativa de limitá-lo, mas de expandi-lo, de recriá-lo. 

Já visto, jamais visto, também de Andrea Tonacci, nasce sem intenção de nascer. E esse se torna o maior desafio de sua montagem. Explica-se: no desejo de conseguir recursos para restaurar alguns materiais já filmados por Tonacci e mandar esses materiais para fora do Brasil, o diretor inscreveu o projeto num edital que exigia a entrega de um filme. Mas nunca houve a ideia de um filme a priori, somente a intenção de recuperar esse material já filmado. E eis que assim surge um filme feito nessa colagem muito delicada de imagens que oscilam entre o pessoal e o histórico, entre a evidência dos arquivos e a imaginação de ficções, entre imagens de filmes inacabados e a ideia de criar um projeto de montagem, ele mesmo, usando a incompletude como motor movente. “Foi um processo que eu não sei racionalizar muito, foi meio assim, as coisas foram se encaixando”, diz Cristina na entrevista que deu ao catálogo do Forumdoc 2024.  

Alma corsária, de Carlos Reichenbach. Existe toda uma história sobre a montagem desse filme, interna e externa às suas imagens. A interna é de conhecimento público, o trabalho de Cristina Amaral em amarrar os vários flashbacks que o filme traz desses dois poetas que, juntos, colecionam memórias de seus primeiros encontros, é uma referência pra pensar como colocar em linguagem cinematográfica a arbitrariedade desses flashs desordenados e não-lineares que temos de nossas vidas e transformar isso num modo de comunicação em si mesmo. Externamente, é preciso lembrar que essa foi a primeira parceria entre Carlão e Cris Amaral, e que foi graças a uma insistência dela em não parar o processo de montagem, mesmo com a produção pressionando pra que eles acabassem o filme para sua estreia no Festival de Brasília, que Alma Corsária teve esse corte que conhecemos hoje. E sim, ele conseguiu ficar pronto a tempo de estrear em Brasília, onde levou quatro prêmios. 

Mato seco em chamas, de Adirley Queirós. A modulação etérea entre ficção e documentário faz de Mato Seco em Chamas um filme incomparável. Adirley Queirós expressa o desamparo insólito e pontual da ascensão da extrema direita ao poder através da reação das margens, que se juntam para a formação de um partido, o PPP (Partido do Povo Preso). A montagem de Cristina Amaral favorece as personagens, que são duras e fugidas, deixa o plano repousar sobre elas, cria uma dilatação do tempo muito específica, que dura às vezes o tempo de um cigarro inteiro. Destaque para um dos cortes mais incríveis do cinema nacional contemporâneo: a passagem entre as mulheres cantando, dançando e se pegando no ônibus para o mesmo enquadramento, só que com o ônibus indo para um presídio. A própria Cristina diz que o filme tem um movimento de explosão e implosão, que constroi o seu próprio tempo.

Eu sei que você sabe, de Lina Chamie põe à prova o diálogo. Através da montagem de Amaral, que ridiculariza a singularidade da comunicação humana, particularmente de uma burguesia às voltas com gestos vazios, que parecem estar sempre num eterno looping de repetições dentro de sua incomunicabilidade, o filme vai se montando como uma sátira que Cristina Amaral costura muito bem com a trilha sonora extra-diegética, nesse cinema que faz graça com o timing e os rostos publicitárias da TV brasileira. Um bom e curto exemplo de como o trabalho de Cris Amaral está completamente modulado pela criação de ritmos específicos que criam narrativas e sensações específicas.

Publicado por FICINE

O FICINE tem por objetivo a construção de uma rede internacional de discussões, projetos e trocas que tenham como ponto de partida e ênfase a reflexão sobre os Cinemas Negros na diáspora e no continente africano.

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