Camille Billops e a desestabilização das imagens

Vinícius Dórea

Pela primeira vez em Belo Horizonte será exibida no Cine Santa Tereza a filmografia completa da cineasta, artista e arquivista norte-americana Camille Billops. A mostra Retrospectiva Camille Billops, que acontece entre os dias 15 e 20 de Outubro, com curadoria de Carla Italiano e Janaína Oliveira e contará com os filmes:  Suzanne, Suzanne (1982), Mulheres mais velhas e o amor (1987), Encontrando Christa (1991) — premiado no Festival de Sundance —, A boutique KKK não é apenas de caipiras (1994), Pegue suas malas (1998) e Um colar de pérolas (2002), além de outros sete filmes de outras autorias, épocas e países, que dialogam com a obra de Billops. 

“O trabalho artístico de Camille Billops em todas as áreas, e especialmente no cinema, funciona com uma proposta de desestabilização”, diz a pesquisadora e curadora Carla Italiano. Encontrando Christa (1991), um dos seus filmes mais conhecidos, retrata a decisão de Billops de dar a sua filha de 4 anos para adoção quando percebeu que não era uma boa mãe. Em entrevista, Camille já disse que muitas mulheres que assistiram ao filme a procuraram para falar de filhos que elas também não conseguiram criar ou para confessar que também não queriam ter sido mães. “O aspecto principal do trabalho da Billops é a provocação de tocar nos assuntos que não se abordava e levar os debates e presenças em lugares que inicialmente não estaria colocado”, continua Carla. 

Algo fundamental no gesto curatorial da mostra são justamente os diálogos pensados entre essa obra e o trabalho de outras realizadoras negras. “A gente quer constelar o trabalho de Billops e do James Hatch com algumas cineastas importantes, desde as mais veteranas como a Madeline Anderson, a Fronza Woods e a Cauleen Smith, como com gerações mais novas, a exemplo da Chloe Abrahams, que acabou de fazer seu primeiro longa-metragem, e com o trabalho da Ana Pi, Layla Braz e Meibe Rodrigues”, explica Janaína Oliveira. Ainda segundo ela, “os entrecruzamentos se dão por esse agenciamento de memórias negras, da família, da reelaboração de traumas e lacunas, da ausência de registros e ao mesmo tempo da pulsão de registrar. Os diálogos são movidos por esses interesses de cruzar temas com gerações distintas que elaboram sobre eles.”

Falecida em 2019, Billops foi um dos grandes nomes das artes e ativismos negros a partir da década de 1960 nos Estados Unidos, contando com mais de quatro décadas de carreira em diferentes suportes. O seu trabalho surge em um contexto de luta pelos direitos civis e da ascensão do movimento de artistas negro. Ao lado de James V. Hatch, seu companheiro de vida e de criação, Camille fundou a Hatch-Billops Collection, um vasto acervo dedicado à preservação da cultura negra, que reúne milhares de arquivos, histórias orais, documentos e fotografias, sendo hoje um dos mais importantes dos Estados Unidos. Esse exercício de criação de futuros através da manipulação de arquivos atravessa toda sua obra, sempre explorando uma junção entre o pessoal e o político. Ou ainda, nas palavras da própria artista: “A coisa mais revolucionária que você pode fazer é um livro sobre a sua vida…coloque seus amigos, todo mundo que você amou e faz muitos desses até que um dia eles vão te encontrar e saber que vocês estavam todos juntos aqui.”

A mostra será totalmente gratuita e trará a filmografia de Billops em cópias restauradas em 4K, lançadas em 2023 nos Estados Unidos. A programação inclui, além de exibições com medidas de acessibilidade, um livreto virtual com textos inéditos, e três mesas de debate com pesquisadoras e realizadoras convidadas, que trarão reflexões sobre a atualidade das obras e sua conexão com questões pertinentes às artes negras, estudos de cinema, feministas e  autobiográficos.

Mais informações e toda a programação pode ser encontrada no Instagram da Mostra.

Publicado por FICINE

O FICINE tem por objetivo a construção de uma rede internacional de discussões, projetos e trocas que tenham como ponto de partida e ênfase a reflexão sobre os Cinemas Negros na diáspora e no continente africano.

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