4ª Semana de Cinema Negro de BH: desejos, conquistas, pulsões e desafios

Quarta edição. A Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte começa nesta sexta-feira, 13 de setembro, sua quarta edição. Na métrica dos festivais de cinema do país, parece pouco. Mas o tempo de um festival como a Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte precisa ter outros referenciais de medida, outras réguas, certamente menos lineares e mais curvas. Primeiro, existe a medida de todas as conversas sobre o tempo em que sequer se discutia a existência de festivais que pensam cinematografias negras brasileiras, africanas e diaspóricas. Depois, existe o tempo implícito nos próprios filmes e conversas que circulam dentro dessa quarta edição e de tantas outras mostras e festivais que se dedicam a tratar desse universo, são tempos espiralares que se animam e se reanimam nos encontros entre quem veio antes e quem está chegando agora. Mas, sobretudo, existe um tempo difícil para qualquer festival de cinema negro e todos os espaços que se dedicam a apresentar essas cinematografias: o tempo da continuidade. E dos desafios e desejos que surgem com ele.

“Acho que continuidade é a palavra sobre a qual venho pensando. Essa edição vem com o desafio de dar continuidade a um trabalho maior, vem na possibilidade de pensar todas essas edições como um conjunto de obras cinematográficas, mas não só isso, como um conjunto de quem a gente traz, de como são compartilhadas as vivências dos filmes e da vida”, afirma Layla Braz, diretora artística e coordenadora geral desse festival que, apesar da aparente pouca idade, se revela maduro em seu processo curatorial de articular pessoas, filmes e o mundo em que elas estão implicadas. “Todas as pessoas que estão trabalhando na mostra estão porque acreditam no projeto e porque acreditam na continuidade dele, mas a gente não consegue fazer só com amor, é preciso fazer com dinheiro, é fundamental a gente pensar nos editais públicos e como eles podem, ou não, ajudar isso a acontecer”, conclui ela.

Este ano, o festival homenageará Lilian Solá Santiago, mãe de Dandara, documentarista, roteirista, pesquisadora e professora-cineasta. Na Sessão Homenagem Maria José Novais Oliveira, que já prestou tributo em edições passadas à própria Maria José e a atriz Rejane Faria, Lilian terá seu trabalho revisto a partir dos filmes “Casa da Memória Negra de Salto” (2021), filme que compõe o projeto experimental de documentário de ocupação, que integra a tese de doutorado da cineasta;  Batuque de Graxa (2012), curta que se aproxima da história do compositor Toniquinho Batuqueiro, nascido em Piracicaba, interior de São Paulo; e o documentário Eu Tenho a Palavra (2011) que empreende uma viagem linguística em busca das origens africanas da cultura brasileira. Autora de vários documentários premiados, Lilian trabalha na encruzilhada da história com o cinema e se aproxima das memórias negras para criar suas imagens com uma escuta sensível e perspicaz. 

A programação da Semana (CONFIRA AQUI DIA A DIA), que nesta quarta edição traz a arte de Ana Paula Sirino em sua identidade visual, é extensa, intensa e diversa. Mas vamos elencar aqui alguns destaques que, para nós do FICINE, são da maior importância:

Políticas do Olhar

Começando com uma das atividades formativas que está diretamente relacionada às atividades do FICINE. O Políticas do Olhar – Diálogos sobre Curadoria e Descolonização é uma série de conversas ao vivo com curadores de cinema da África e das diásporas, criada por Janaína Oliveira em 2019. Este ano, o Políticas conversa com Jonathan Ali, programador de cinema, curador e escritor. Ali começou a sua carreira no Festival de Cinema de Trinidad e Tobago (2006-2015) onde, entre outras iniciativas inovadoras, foi curador da primeira retrospectiva caribenha da obra de John Akomfrah e do Black Audio Film Collective. Importante frisar que a ideia por trás do Políticas do Olhar surge de um interesse em curadorias e nos debates que estão sendo feitos no Brasil e no mundo. Sobre isso Janaína diz:  “as curadorias, para além das dimensões artísticas e criativas, são também lugares de exercício de poder, impactando diretamente nas trajetórias de filmes, na formação das plateias e no universo da crítica cinematográfica. Historicamente, no entanto, esses lugares foram ocupados predominantemente por pessoas não-racializadas e, em grande parte, homens brancos cisgêneros membros de elites culturais e econômicas, seja no norte ou no sul global. A ausência de diversidades, sejam de raça, gênero ou mesmo territorial, se reflete nas programações que vemos em grande parte dos festivais e mostras de cinema. O Políticas busca destacar iniciativas que apontem para uma cultura fílmica diversa e não-hegemônica que emergem a partir do momento que outras presenças ocupam o lugar de curadoria.”

Mostras com curadoria de Janaína Oliveira

Além do Políticas, a Semana de Cinema Negro de BH renova sua parceria com o FICINE nessa edição com a realização de cinco mostras organizadas por Janaína Oliveira, idealizadora e membra do FICINE. Entre elas, estão duas mostras dedicadas ao cinema caribenho: a primeira, Arquipélago de Cinemas: filmes contemporâneos do Caribe será composta por dois filmes do diretor haitiano Pierre Jean Michel, Twice In The Oblivion (Duas Vezes Esquecido) e Toro la Cou e um longa metragem, Ramona, da diretora dominicana Victoria Linares Villegas. A segunda se chama Revolucionária antes de tudo: o cinema de Sara Gómez, com foco na primeira realizadora cubana e primeira diretora negra da América Latina, Sara Gómez, a partir da exibição dos curtas Iré a Santiago (1964), Guabanacoa: Crónica de mi familia (1966) e Una isla para Miguel (1968), além do seu longa De Cierta Manera (1977). 

Janaína faz ainda a curadoria das mostras As Muitas Áfricas: um olhar sobre as produções contemporâneas do continente, a Sessão Especial Pioneiros dos Cinemas Africanos: Timité Bassori e Paulin Vieyra e a Abrindo caminhos: obras precursoras dos cinemas negros no Brasil. Nessa última, além do filme Um é pouco, dois é bom (1970) de Odilon Lopes e Na boca do mundo (1976), de Antonio Pitanga, haverá exibição de As aventuras amorosas de um padeiro (1978), de Waldir Onofre, e, claro, Abolição (1988) único longa metragem dirigido por Zózimo Bulbul. 

Cine Escrituras Pretas:

Com curadoria de Anti Ribeiro, Fabio Rodrigues Filho e Yasmine Evaristo, a mostra apresenta obras contemporaneas de realizadores negros brasileiros. “Acreditamos que é nos entremeios que está o cerne do que seria uma Escritura Preta. Preto aqui como uma entidade que não permite espiar suas bordas; de primeira, não se sabe onde começa e onde acaba. É preciso tatear em meio a estes escritos fílmicos para pensar sua dimensão ‘preta’”, diz o texto da curadoria. A notícia importante aqui é que essa é a mostra que terá exibição online para todo o Brasil entre 13 e 20 de setembro, a partir da Ubuplay, plataforma de streaming dedicada aos filmes realizados por pessoas negras dos países afrodiaspóricos. As sessões foram organizadas nos seguintes grupos: “No Mundo dos Feitiços”, “Fragmentos de uma aurora para ilustrar meu coração”, “Bordar a Vida no bastidor”, “Paredes e Telhados”, “Aqui, além dos endereços” e “Terror Mandelão”.

Ações formativas

Um dos focos da Semana desde sua primeira edição é a promoção de ações formativas. Este ano, além da masterclass de Direção de Atores, ministrada pela atriz, roteirista e preparadora de elenco Georgina Castro, em que os participantes serão convidados a entrar em uma imersão prática dentro do processo de direção de atores e preparação de elenco, o festival promove a oficina Fragilidades: desenvolvimento de longa-metragem, com Paula Santos e Bruno Hilário, que vão apresentar conteúdos sobre a formatação e o desenvolvimento de projetos de longa-metragem, considerando contextos descentralizados de realização. As aulas perpassam por processos que começam nas etapas de roteirização (da ideia original ao primeiro tratamento do roteiro), passam pela pesquisa, papel da direção e conceitualização estética até a estruturação do projeto executivo e o papel do produtor no processo criativo e logístico da etapa de desenvolvimento. As inscrições tanto para a Masterclass quanto para a Oficina podem ser acessadas pelo Instagram da Semana

A 4ª Semana de Cinema Negro é produzida pela Quiabo Produções e Carapiá Filmes, realização SECULT, através da Lei Paulo Gustavo. A programação do festival é totalmente gratuita.

Publicado por FICINE

O FICINE tem por objetivo a construção de uma rede internacional de discussões, projetos e trocas que tenham como ponto de partida e ênfase a reflexão sobre os Cinemas Negros na diáspora e no continente africano.

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