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ROTTERDAM E O CINEMA NEGRO BRASILEIRO (PARTE II): texto do catálogo do IFFR para a Mostra "Soul in the eye".

23.01.2019 | Janaína Oliveira

Soul in the eye - Zózimo Bulbul's Legacy and the contemporary Black Brazilian Cinema

 

Por Janaína Oliveira e Tessa Boerman

   

Depois de Black Rebels em 2017 e do Pan-African Cinema Today (PACT) em 2018, Soul in the Eye é o terceiro programa que destaca os principais movimentos do cinema pan-africano. Voltamos aqui nossos olhos para o Brasil, a maior comunidade da diáspora africana no mundo e ligamos o recente surto de filmes brasileiros negros ao trabalho pioneiro do ator, produtor, diretor e ativista Zózimo Bulbul (1937-2013).

Soul in the Eye, a tradução em inglês para o título original Alma no olho, curta-metragem escrito, dirigido e interpretado por Zózimo Bulbul em 1973, e um trabalho fundamental no cinema negro brasileiro. Inspirado no livro Soul on Ice, de Eldrige Cleaver e dedicado a John Coltrane, este filme de onze minutos foi a estreia de Bulbul como cineasta e é uma das referências mais importantes para realizadores negros que vieram depois dele. Nascido e criado no Rio de Janeiro, Bulbul iniciou sua carreira no início dos anos 1960 como ator durante a era do Cinema Novo. Depois de dirigir Alma no olho, fez mais sete curtas e um longa-metragem, Abolição, um documentário épico em comemoração ao centenário do fim da escravidão no Brasil.

Construindo pontes

Bulbul era um ativista pan-africano implacável, lutando para denunciar o apagamento das culturas africanas e afrodescendentes no cinema e na televisão brasileiras. Em 2007 criou o Centro Afro Carioca de Cinema, um quilombo no coração do Rio de Janeiro como ele próprio costumava dizer, e fundou o Encontro de Cinema Negro - Brasil, África e Caribe, um dos primeiros festivais de cinema negro na América Latina e o maior até o presente. Com o Encontro e estabelecendo uma parceria com o Fespaco, o Festival Pan-Africano de Cinema e Televisão em Ouagadougou, Burkina Faso, Bulbul conectou cinemas africanos e diaspóricos, construindo pontes entre cineastas negros em todo o mundo.

Além do legado de Bulbul, o surgimento dessa geração de cineastas também está relacionado às ações afirmativas no Brasil entre 2003 e 2016, resultando em uma política educacional inclusiva e novas escolas de cinema fora das principais capitais. Esses desenvolvimentos levaram a um aumento significativo do cinema negro brasileiro nos últimos anos. Os programadores Peter van Hoof e Tessa Boerman quiseram captar este momento e convidaram Janaína Oliveira como curadora convidada.

Oliveira trabalhou com Bulbul como pesquisadora acompanhando a história do Centro Afro Carioca de Cinema desde os primeiros tempos e nos últimos dez anos vem pesquisando e programando filmes de africanos e da diáspora negra. Atualmente é curadora do Encontro de Cinema Negro e tem sido uma figura chave na promoção de filmes brasileiros negros no Brasil e no exterior.

 

Janaína Oliveira e Bulbul em 2010.

Histórias revigorantes

O programa de filmes Soul in the Eye mostra uma seleção do trabalho de Bulbul e novos lançamentos de cineastas de todo o Brasil. Entre os destaques está o segundo longa-metragem de André Novais Oliveira, Temporada, no qual ele confirma seu talento para captar as sutilezas do cotidiano. Os diretores Glenda Nicácio e Ary Rosa retornam após o premiado Café com canela (IFFR 2018) com a inquietante e provocador Ilha.

Ilha de Glenda Nicácio e Ary Rosa tem estreia internacional na Soul in the eye

  Além dos longa-metragens, Soul in the Eye esboça um panorama da produção contemporânea de curtas brasileiros, com mais de vinte curtas criados entre 2014 e 2019. Entre eles está Nada, um curta-metragem de Gabriel Martins, indicado para o prêmio Tiger deste ano com seu longa-metragem No coração do mundo. Organizado em cinco sessões, das quais três são precedidas por uma obra de Bulbul, cada programa de curta metragem trata de uma complexidade histórica específica da negritude brasileira, apresentando um cinema inovador que resiste, supera e recria essa experiência.  

Trailer de "No coração do mundo" de Gabriel Martins e  Maurílio Martins que está concorrendo ao prêmio principal do Festival.

 

É esse legado que instigou uma ampla gama de narrativas revigorantes, desde a enfaticamente humana ao filmar a vida cotidiana negra brasileira (Eu, minha mãe e Wallace; O dia de Jerusa), até a descolonização de identidades (Quantos eram pra tá ?, Pattaki) e histórias sobre sobreviver às violências por meio do afeto (BR3, Rainha).

Pattaki de Everlane Moraes terá sua estreia mundial na Soul in the eye

Esta é uma nova geração de cineastas que faz história escrevendo, produzindo e dirigindo seus próprios filmes, explorando sua autoria e contribuindo para a variedade de histórias cinematográficas sobre experiências humanas. Como Zózimo Bulbul disse depois de sua primeira visita a Ouagadougou durante do Fespaco:

“Lá, descobri que o africano que preserva a cultura oral e ama o cinema porque é um ato social de integração, diferente da literatura, que é mais individual. Cineastas africanos são verdadeiros griots, sábios que contam histórias para as pessoas. E assim fazemos aqui, respeitando nosso tempo, nossas cores e nossa música ”.

Algo Bulbul não pode testemunhar em vida no Brasil, mas imaginou ver com a alma no olho.

 
> Leia o texto original em inglês publicado no catálogo no site do festival:  aqui
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Lista dos filmes que compõem a mostra Soul in the eye

   

Longas metragens :

  • Abolição, Zózimo Bulbul, 1988, Brazil, 153’
  • Ilha, Ary Rosa/Glenda Nicácio, 2019, Brazil, 94’, international premiere
  • Meu amigo Fela, Joel Zito Araújo, 2018, Nigeria/France/USA/Brazil, 94’, world premiere
  • Temporada, André Novais Oliveira, 2018, Brazil, 113’

Cutas metragens:

  • Afronte, Bruno Victor/Marcus Azevedo, 2018, Brazil, 15’
  • Alma no olho, Zózimo Bulbul, 1973, Brazil, 11’
  • Aniceto do Império em dia de alforria, Zózimo Bulbul, 1981, Brazil, 11’
  • ASSIM, Keia Serruya, 2013, Brazil, 13’
  • BR3, Bruno Ribeiro, 2018, Brazil, 23’, international premiere
  • Cartucho de Super Nintendo em Aneis de Saturno, Leon Reis, 2018, Brazil, 20’, international premiere
  • Dia de Jerusa, Viviane Ferreira, 2014, Brazil, 21’
  • Elekô, Coletivo Mulheres de Pedra, 2015, Brazil, 6’
  • Eu, Minha Mãe e Wallace, Eduardo Carvalho/Marcos Carvalho, 2018, Brazil, 22’, international premiere
  • Experimentando o Vermelho em Dilúvio, Musa Michelle Mattiuzzi, 2016, Brazil, 8’, international premiere
  • Kbela, Yasmin Thayná, 2015, Brazil, 22’
  • Merê, Urânia Munzanzu, 2019, Brazil, 16’
  • Nada, Gabriel Martins, 2017, Brazil,  27’
  • NoirBLUE, déplacements d'une danse, Ana Pi, 2019, Brazil/France, 27’, international premiere
  • Pattaki, Everlane Moraes, 2019, Cuba, 20’, world premiere
  • Pequena África, Zózimo Bulbul, 2002, Brazil, 14’
  • Perpétuo, Lorran Dias, 2018, Brazil, 25’, international premiere
  • Peripatético, Jéssica Queiroz/Jéssica Queiroz, 2017, Brazil, 15’, international premiere
  • Pontes sobre Abismos, Aline Motta, 2018,  Brazilië, 8’, international premiere
  • Quantos eram pra tá?, Vinícius Silva, 2018, Brazil, 29’, international premiere
  • Quintal, André Novais Oliveira, 2015, Brazil, 15’
  • Rainha, Sabrina Fidalgo, Sabrina Fidalgo, 2016, Brazil, 30’
  • O Som do Silêncio, David Aynã, 2019, Brazil, 17’, European premiere
  • Travessia, Safira Moreira/Safira Moreira, 2017, Brazil, 5’

 

 
  

Janaína Oliveira

Pesquisadora e curadora, Janaína Oliveira é doutora em História, professora no IFRJ (Instituto Federal do Rio de Janeiro), e Fulbright Scholar no Centro de Estudos Africanos na Universidade de Howard, em Washington D.C. nos EUA. Atualmente é curadora do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul (RJ) e do FINCAR (Festival Internacional de Realizadoras / PE), além de integrar as comissões de seleção de filmes do Festival de Brasília (DF), do Kinoforum (SP), da Semana dos Realizadores (RJ) e do Festival Visões Periféricas (RJ). Faz parte da APAN (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro). É idealizadora e coordenadora do FICINE, Fórum Itinerante de Cinema Negro (www.ficine.org).
Outros artigos do autor:
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