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Nada a perder ou a fotografia de Rotimi Fani-Kayodé (parte 1)

27.01.2014 | Janaína Damaceno

"Homens negros do Terceiro Mundo ainda não revelaram, nem para seu próprio povo, nem para o Ocidente um fato chocante: eles podem desejar um ao outro." Rotimi Fani-Kayodé.

Faz um tempo que eu queria escrever um post sobre o Rotimi Fani-Kayodé, um dos meus fotógrafos prediletos. E num momento em que ser gay tornou-se crime na Nigéria, acho que lembrar de Kayodé vem muito a calhar. Ele nasceu em 1955, em Lagos, de uma família bastante poderosa. Basta lembrar que seu pai, o advogadoVictor Fani-Kayode "Fany Power", uma importante liderança Yorubá,  foi quem apresentou à Inglaterra a emenda sugerindo a independência de seu país. Cedo partiu para a Grã-Bretanha com a família, onde se refugiaram dos perigos da Guerra da Biafra (1967-1970). Rotimi começou a fotografar ainda na universidade, realizando um trabalho experimental de bastante impacto. Seus modelos prediletos eram homens, negros e a maior parte de suas fotos tematizavam a questão gay, o racismo, a religiosidade Yorubá e a colonialidade. Aos que comparam o seu trabalho com o de seu amigo Mapplethorpe, o próprio Kayode dá uma resposta no texto logo abaixo. Para ele este tipo de fotografia não passava de "mistificação."  Ele foi polêmico também ao relacionar a religiosidade com a sexualidade gay em suas fotos, o que despertou a ira de sua comunidade. Além disso, o fato de ser gay o tornava um pária entre os Yorubá. Rotimi morreu em 1989, de ataque cardíaco e complicações do SIDA. Abaixo, traduzi a primeira metade de seu manifesto, Traces of Ecstasy, escrito em 1987. Na próxima semana, publico a segunda parte do texto e comento mais sobre o seu trabalho.

 

TRAÇOS DE ÊXTASE (I)

Tem sido o meu destino terminar como um artista com um gosto sexual por outros homens jovens. Como resultado disso, surgiu uma certa distância entre mim e minhas origens. A distância é ainda maior dado eu ter deixado a África como um refugiado 20 anos atrás.

Eu sou um outsider em três sentidos: no sentido da sexualidade; em termos do deslocamento geográfico e cultural; e no sentido de não ter me transformado no profissional respeitável e casado que meus pais desejavam. Tal posição me dá o sentimento de ter muito pouco a perder. E isso produz um senso de liberdade pessoal frente às convenções.

Para alguém que conseguiu conquistar a sua criatividade a despeito das pressões, isto teve um efeito liberador. Abriram-se áreas da criatividade que talvez permanecessem para sempre esquecidas. Ao mesmo tempo, aqueles traços de valores mais antigos permaneciam, possibilitando a  realização de novas leituras (do que era tradicional) a partir de um vantajoso ponto de vista não usual. Os resultados dessas relações (e do meu trabalho) desorientam (o expectador).

Na arte africana tradicional, a máscara não representa a realidade material: ao contrário, o artista esforça-se em aproximar-se da realidade espiritual através de imagens sugeridas por formas humanas e animais. Eu acho que a fotografia pode querer alcançar o mesmo nível de interpretação imaginativa da vida. Minha realidade não é aquela que frequentemente nos é apresentada nas fotografias ocidentais. Como um africano trabalhando num meio ocidental, eu tento dar uma dimensão espiritual às minhas fotografias, tornando ambíguos os conceitos de realidade e fazendo com que eles estejam abertos à reinterpretação. Isto requer o que os sacerdotes Yorubá e os artistas chamam de uma técnica de ‘êxtase’.

Estética e eticamente, eu procuro traduzir minha raiva e meu desejo em novas imagens que implodam percepções convencionais e que revelem mundos ocultos. Muitas dessas imagens são vistas como sexualidade explícita ou mais precisamente, homossexualidade explícita. É intencionalmente que eu faço fotos homossexuais. Homens negros do Terceiro Mundo ainda não revelaram, nem para seu próprio povo, nem para o Ocidente um fato chocante: eles podem desejar um ao outro.

Alguns fotógrafos ocidentais têm mostrado que eles podem desejar homens negros (ainda que de um modo neurótico). Mas a mistificação exploradora da virilidade negra criada pela burguesia homossexual não é de fato diferente da coisificação vulgar da África que nós conhecemos através de extremos como, de um lado, o do trabalho de Leni Riefenstahl e, de outro, o das imagens de vítimas que surgem constantemente na mídia. Por isso, agora é o momento de nos reapropriarmos de tais imagens e transformá-las ritualisticamente em imagens de nossa própria criação. Para mim, isto envolve uma investigação imaginativa da negritude, da masculinidade e da sexualidade.

Contudo, é mais fácil dizer do que fazer. Trabalhando no contexto ocidental, o artista africano inevitavelmente encontra o racismo. E desde que eu tenho concentrado muito do meu trabalho no erotismo masculino, eu tenho sido alvo de reações homofóbicas, tanto da comunidade branca quanto da comunidade negra. Embora isso me desaponte, num sentido puramente humano, talvez também produza um tipo de conflito essencial através do qual surgem novas visões. Contudo, este é um conflito entre desiguais e, nesse sentido, eu permaneço em desvantagem.

Por este motivo, eu tenho sido ativo em vários grupos organizados em torno de questões referentes à raça e à sexualidade. Para o indivíduo, juntar-se a essas atividades pode deixá-lo mais confiante e com mais discernimento. Para os artistas, isso pode transformar nossas ideias ocidentalizadas – por sua vez, a arte é produto de um desejo individual ou que deve se conformar a certos princípios estéticos de gosto, estilo e conteúdo. Isto também pode ter o efeito muito concreto de fornecer os meios para que os artistas antes isolados e impotentes possam agora mostrar o seu trabalho e insistam em ser levados a sério.

Traços de Ecstasy completo em inglês pode ser encontrado
aqui. Trabalhos de Kayodé podem ser vistos no site da galeria Michael Stevenson, sobre a qual escreverei em outro momento.

Quem melhor escreve sobre Rotimi é Kobena Mercer. Em português você pode ler Eros e Diáspora.

 
  

Janaína Damaceno

Doutora em Antropologia pela Universidade de São Paulo (2013) e Mestre em Educação pela UNICAMP (2009), produtora audiovisual e fotógrafa. Tem experiência na produção de cinema e vídeo, tendo atuado como produtora e diretora de curtas e programas de TV, com destaque para a realização, como produtora, da TV Povos do Mar e do documentário Quilombos Paulistas. Dirige com Victor Epifanio a série Roteiros Negros. Já produziu filmes em parceria com ONGs da Alemanha e para a UNICEF. Suas pesquisa giram em torno da relação entre educação, cinema e fotografia negros. Realizou a exposições Quilombos, no Espaço Unibanco de Cinema e na Universidade de São Paulo. No momento, está preparando a exposição Barroco Animado, sobre a cultura infanto juvenil na área rural de Mariana e Ouro Preto, Minas Gerais.
Outros artigos do autor:
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