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Cinema Negro e Pesquisa Acadêmica

20.01.2014 | Janaína Damaceno

Quando pensamos em criar o Ficine, uma de nossas preocupações era realizar um levantamento acerca da produção cinematográfica e acadêmica sobre o cinema negro e o negro no cinema brasileiro, pois não havia esse levantamento sistematizado em nenhum local. Percebemos, logo de cara, que desde 2000 vem crescendo o número de pesquisadores - sobretudo no que se refere ao cinema africano - a biografia de atores negros, a realização de mostras e festivais e o número de cineastas negros, embora esse montante ainda seja muito inferior ao desejado. Este aumento decorre, sobretudo, da formação de grupos de estudo – como o grupo de Cinema Negro de Brasília, de coletivos  - do Dogma Feijoada ao Tela Preta da Bahia, do aumento do número de estudantes negros nas faculdades de cinema e do interesse de alguns raros professores e pesquisadores, da área de crítica e história do cinema na discussão sobre o cinema negro. Nesse quesito, podemos destacar a presença de professores como Robert Stam e Ella Shohat, que entre 1999 e 2010 vieram ao Brasil e ministraram ao menos 2 cursos sobre o cinema e multiculturalismo no estado de São Paulo e Lúcia Nagib, professora do departamento de Multimeios da Unicamp entre o final dos anos 1990 e início dos anos 2000, quando ministrou um curso de pós-graduação sobre o negro no cinema brasileiro, onde se encontravam jovens intelectuais hoje reconhecidos na área de discussão sobre cinema - como Noel Carvalho - e relações raciais e sexualidade - como Osmundo Pinho. Ela também foi responsável pela exibição de filmes e a vinda de intelectuais africanos para o Brasil. Hoje, Lúcia Nagib é professora da Universidade de Reading no Reino Unido. Ainda na passagem entre os anos 1999 para 2000, Joel Zito Araújo defende a tese A Negação do Brasil, Identidade racial e estereótipos sobre o negro na história da telenovela brasileira sob a orientação de Solange Couceiro na ECA/ USP. Também devemos destacar as pesquisas sobre cinema africano de Mahomed Bamba (UFBA), Alessandra Meleiro (UFF) e Janaína Oliveira (IFRJ), que disseminam o tema em cursos de graduação, publicações e orientações de monografias, dissertações e teses.

A escassez de pesquisas sobre o cinema negro faz com que tenhamos conhecimentos limitados sobre a produção cinematográfica de pessoas negras no mundo, de outras formas de organização das narrativas, etc. Isso também se reverte na qualidade da crítica cinematográfica sobre a presença do negro no cinema. (Cabe notar que raros são os artigos de jornal no Brasil que tematizam 12 anos de escravidão de Steve McQueen, como um filme dirigido por um cineasta negro).  Basta listar as disciplinas sobre história do cinema nos cursos de audiovisual para ter uma ideia da limitação universitária acerca do tema.

Pesquisar a presença do negro nos meios de comunicação, pode ser remontado ao trabalho de Virgínia Bicudo sobre o jornal a Voz da Raça em Estudo de Atitudes de Pretos e Mulatos em São Paulo (1945), ao trabalho inovador de João Baptista Borges Pereira, Cor, Profissão e Mobilidade - o negro e a rádio de São Paulo, (1967) sobre o negro na rádio e, posteriormente, ao trabalho de Solange Couceiro O Negro na Televisão de São Paulo: um estudo de relações raciais (1983). Enquanto a primeira fazia mais uma análise de conteúdo sobre a produção da imprensa negra paulista, os dois últimos vão procurar saber como o negro se insere profissionalmente na linha produtiva do rádio e da televisão.

Numa sociedade em que não há igualdade de oportunidades na produção cinematográfica, a opção por estudar o “cinema negro” se relaciona ao fato de tentar entender o que produzem homens e mulheres negros quando conseguem vencer as barreiras inerentes à produção audiovisual no Brasil e na diáspora. Interessa-nos, sobretudo, conhecer os discursos auto-narrativos de cineastas negros, a construção de personagens negras e os modos de produção cinematográfica nas periferias.

Para entender esse movimento fiz um levantamento das monografias, dissertações, teses, livros e artigos que englobam a temática. Para tanto, visitei bancos de teses de universidades, da Capes e solicitei o auxílio de alguns colegas. Um destaque deste levantamento é a tese A construção da memória e da identidade em filmes de cineastas negros brasileiros de Dione Moura, defendida em 1990 pela UNB. Mas nem todos os textos têm link para uma versão digitalizada.   Aos poucos vamos entrando em contato com os autores solicitando os textos e links, mas gostaríamos também que aqueles que já escreveram sobre o assunto, enviassem seus textos para nosso banco de referências.

Aílton Pinheiro trabalhou no levantamento de filmes e nomes de cineastas negros e agora, faz o levantamento de festivais de cinema no Brasil e no exterior. Outro objetivo é elencar onde as pessoas estudam e pesquisam sobre o cinema negro. Publicizar cursos, mini-cursos, disciplinas, oficinas, etc, que ocorrem pelo Brasil.

Estamos abertos para a contribuição de vocês. Acreditamos que esse banco de textos possa ser útil para estudantes, professores e pesquisadores.

Aos poucos vamos expandindo a base para as produções acadêmicas e cinematográficas estrangeiras. Focando, primeiramente, nas produções latinoamericanas e africanas, pensando a partir da produção e reflexão do sul global, para então expandir o banco de referências para outras experiências de produção pelo mundo.

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Janaína Damaceno

Doutora em Antropologia pela Universidade de São Paulo (2013) e Mestre em Educação pela UNICAMP (2009), produtora audiovisual e fotógrafa. Tem experiência na produção de cinema e vídeo, tendo atuado como produtora e diretora de curtas e programas de TV, com destaque para a realização, como produtora, da TV Povos do Mar e do documentário Quilombos Paulistas. Dirige com Victor Epifanio a série Roteiros Negros. Já produziu filmes em parceria com ONGs da Alemanha e para a UNICEF. Suas pesquisa giram em torno da relação entre educação, cinema e fotografia negros. Realizou a exposições Quilombos, no Espaço Unibanco de Cinema e na Universidade de São Paulo. No momento, está preparando a exposição Barroco Animado, sobre a cultura infanto juvenil na área rural de Mariana e Ouro Preto, Minas Gerais.
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