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"Mãe dos netos" - Uma narrativa de afeto e memória no cinema africano

05.05.2014 | Edileuza Penha de Souza | ,

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Ouça no vento / O soluço do arbusto: É o sopro dos antepassados. / Nossos mortos não partiram. Estão na densa sombra. / Os mortos não estão sobre a terra. Estão na árvore que se agita, / Na madeira que geme, Estão na água que flui, / Na água que dorme, Estão na cabana, na multidão; / Os mortos não morreram... ANCESTRALIDADE - BIRAGO DIOP

Produzido em Moçambique pela FDC - Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade, realizado por Isabel Noronha e Vivian Altman, o curta-metragem "Mãe dos Netos" (2008) é um documentário com duração de seis minutos, narrado por Vovó Elisa, personagem central. Ela conta a história de Francisco, seu único filho e herdeiro, de como ele e suas oito mulheres morreram em decorrência do HIV/Aids, deixando sob sua responsabilidade 14 netos. "É uma história que simboliza um pouco a desestruturação de todo um tecido nacional e da noção quase mítica da família alargada", disse a realizadora Isabel Noronha em entrevista à Rádio Voz da América, no CINEPORT - Festival de Cinema de Língua Portuguesa, ocorrido em maio de 2009, em João Pessoa, onde pela primeira vez o filme foi exibido no Brasil.

O documentário retrata uma história real, um problema social, cultural, econômico e político. Descreve a morte e a desintegração familiar, ao mesmo tempo em que traça o apoio mútuo e os afetos que operam na família Muchanga. A naturalidade e a leveza das crianças na tela trazem a necessidade de se pensar sobre a continuidade das famílias, uma vez que, afetadas pela doença e morte decorrentes do vírus da Aids, são forçadas radicalmente a romper com as tradições comunitárias, segundo as quais as famílias são constituídas dentro de uma construção coletiva e ampliada. As crianças são a representação do futuro, são elas que possibilitam a continuidade de cada comunidade, portanto, a responsabilidade sobre elas é de todos e não se limita na figura da família nuclear.

A comunidade é também o cenário do filme; embaixo de um Baobá(2), na medida em que Vovó Elisa narra a morte do filho e suas esposas, ela vai recebendo seus netos e netas como quem recebe uma oferenda. O local onde mora ressoa vida. Uma das câmeras parece captar impremeditadamente as galinhas ciscando no quintal e as pessoas que transitam tranquilamente nos fundos da cena principal. Vovó Elisa é anunciada pelo canto de um galo(3). Como representante dos Muchanga e, também, a Griô(4) de sua comunidade, ela nos conta a trajetória de vida de seu filho Francisco, herdeiro único do gado e das terras de seu pai. Francisco, como milhares de jovens moçambicanos, vai para a África do Sul, trabalhar nas minas de ouro e diamante (5) onde contrai o vírus da Aids, que o faz infectar, uma após outra, suas oito mulheres que, como ele, vêm a falecer.

Inicialmente o filme nos apresenta seus personagens como num desenho animado, modelados em massinha de biscuit, nos envolvendo na história de Vovó Elisa sem muita interação, até que, como num passe de mágica, marcado por uma expressão num idioma africano, as imagens se transportam para o mundo real. O cenário, as roupas e os personagens antes modelados são agora seres e objetos reais, duma realidade dura e cruel, em que somos chamados a compartilhar a morte das mães das crianças e, por que não dizer, a responsabilidade e o afeto pelas 14 crianças.

A narração de Vovó Elisa obedece a uma sequência temporal. O tempo significado é marcado no filme pelo desaparecimento das mulheres. As simbologias da morte das esposas e mães reproduzem os significados da narrativa visual. Morte e vida são figuras do discurso de Vovó Elisa e, portanto, são personagens. Ainda no sentido do tempo significado, as capulanas (6) também são representadas como personagens; elas simbolizam o cotidiano e contam histórias. No filme, quando da representação da morte das mulheres, o que resta estendido nas esteiras são as capulanas que antes cobriam corpos e cabeças.

Em Moçambique, assim como em muitos outros países, as capulanas são símbolos de riqueza e status para as mulheres. Geralmente são presentes do homem que a galanteia, do marido, do filho ou irmão quando regressam, do genro que lhe quer a filha. Quantas mais capulanas uma mulher possui, maior é também seu poder nas relações com a família, vizinhas ou amigos. Herdadas de avós, mães, tias, madrinhas e amigas, as capulanas revelam coisas e acontecimentos antigos; há momentos em que são vistas como os "documentos" de uma comunidade. No filme, elas aparecem como símbolos e muitos significados da história de Moçambique. Vovó Elisa a usa como um manto, acolhendo em seu corpo frágil e magro as criancinhas menores. Impressiona a simplicidade e a beleza como flutuam nos varais e janelas.

A identidade africana vai se firmando na narrativa visual, à medida que as representações das imagens vão aparecendo, como o baobá plantado no centro da comunidade, as casas construídas de adobe, lado a lado, fechando o círculo familiar ampliado, as capulanas usadas. Esses são alguns elementos visuais que vão deixando marcas da identidade africana, A força vital - outro componente da cultura africana - aparece em Vovó Elisa como um elemento de construção dos significados. Como mais velha, Vovó Elisa representa os ancestrais na terra; ela está encarregada de zelar por eles, da mesma forma que precisa cuidar de seus descendentes; a ela cabe a garantia da continuidade de sua comunidade, portanto é ela que detém o conhecimento da vida e os segredos da morte. Ao enfatizar o papel dos mais velhos, o documentário aborda aspectos importantes da construção mítica religiosa do mundo africano. Vovó Elisa é também a Griô, a contadora de histórias, a representante do afeto, da continuidade e da memória dos seus. É ela a cuidadora, portanto coube a ela guardar e proteger 14 crianças.

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Notas:

(1) A íntegra desse artigo encontra-se em: MOTA, Célia Ladeira; MOTTA, Luiz Gonzaga; CUNHA, Maria Jandyra. (Org.). Narrativas Midiáticas. Florianópolis: Insular, 2012.

(2) O baobá, embondeiro, imbondeiro ou calabaceira (Adansonia) é uma árvore sagrada que pode alcançar até 30m de altura, e até 11m de diâmetro do tronco. Destaca-se pela capacidade de armazenamento de água dentro do tronco, que pode alcançar até 120.000 litros.

(3) Em Gaza, província localizada ao sul de Moçambique, conta-se o seguinte mito: Antes da colonização, Moçambique era o refúgio de todos os galos do mundo. O cocorococó que reinava naquele lugar era imenso e ensurdecedor. Em sua algazarra, os galos esqueciam-se de que não eram os únicos habitantes do local. Com a chegada dos portugueses, apesar de alguns estarem contentes com a alegria barulhenta das aves, outros, mais numerosos, estavam furiosos com os galináceos e resolveram mandar a eles um aviso, segundo o qual aconselhavam os galos a se mudarem para um lugar mais afastado. Se isso não acontecesse num prazo de 24 horas, haveria o extermínio de todos os galos. Os galos optaram pela mudança e convocaram uma reunião para decidir quem seria o chefe da expedição. Após escolherem como líder um galo grande e vistoso, iniciaram a viagem e, após muito procurarem, encontraram o lugar que parecia ter sido feito para eles e ali se fixaram. Desde então, nunca mais se viu os galos cantarem desordenadamente, mas somente em local determinado e com hora certa.

(4) Griô, ou Griot significa contador(a) de histórias; a importância de um(a) Griô na África é tão grande que diz-se que quando morre um(a) Griô, morre com ele(a) uma biblioteca. Os griots são aquelas pessoas responsáveis pela manutenção da tradição oral dos povos. Um contador de histórias em torno do qual as pessoas se reúnem para aprenderem sobre si e sobre o mundo.

(5) Segundo a organização não governamental sul-africana TEBA Development, anualmente, mais de 45 mil moçambicanos são recrutados para trabalhar nas minas de África do Sul.

(6) Panos grandes e coloridos usados pelas mulheres, as capulanas são usadas para carregar crianças pequenas, transportar objetos. São usadas como adereços para o corpo e turbantes para cobrir e enfeitar a cabeça.

 
  

Edileuza Penha de Souza

Doutora em Educação e Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), onde leciona as disciplinas “Pensamento negro Contemporâneo” e “Cinema Negro”. Historiadora, mestre em Educação e Contemporaneidade. Professora, trabalha com educação e diversidade, com experiência profissional e publicações em políticas de promoção da igualdade de gênero, raça e etnia, cinema negro e educação quilombola.