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Por um cinema africano no femino (II): o FICINE na 3a edição das Journées Cinématographiques de la Femme Africaine de l'Image

18.03.2014 | Janaína Oliveira | ,

JCFA 2014O FICINE começou sua itinerância! Aconteceu entre 03 e 07 de Março durante a 3a JCFA, Journées Cinématographiques de la Femme  Africaine de l'Image, em Ouagadougou, capital de Burkina Faso. Foram cinco dias de filmes, debates, oficinas e o FICINE estava lá, representado por mim, Janaína Oliveira, e também por Janaína Damaceno. O convite para a nossa participação veio da direção da JCFA, através da Sra. Suzanne Kouruma, e também da presidência do Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou (FESPACO), pelo Sr. Michel Ouedraogo.

As JCFA representam um marco importante no contexto do cinema da África do Oeste pois destacam o protagonismo feminino em todas as esferas da produção audiovisual do continente, mas não só. Criadas em 2010, as Jornadas estão em sua terceira edição e começam a seguir a tendência panafricana do FESPACO. (Em janeiro, publicamos no FICINE um post contando a história das duas edições anteriores. Clique  aqui para saber mais.)

Nesta terceira edição, as Journées contaram pela primeira vez com convidadas internacionais. Além de nós do Brasil, estiveram presentes, representando a produção cinematográfica da diáspora, a diretora de Guadalupe Mariette Montpierre, ganhadora do prêmio destinado aos filmes da diáspora no Fespaco 2013 com o filme La bonheur de Elza, e  Véronique Kanor, cineasta da Martinica com o filme Marcel Manville, D’homme à hommes.

Le Bonheur de Elza

Marcel Manville, D’homme à hommes

Estavam por lá também Amina Mamani-Abdoulaye, cineasta do Niger, com o filme Hawan–Idi vencedor do prêmio especial do Canal+ no FESPACO 2013 para melhor filme de documentário das escolas de cinema. Evelyne Hassou do Benin, com Doudedji, e  duas cineastas de Camarões, Pascale Obolo, expoente de um cinema africano experimental, com o filme Calypso Rose e também Fraçoise Ellong, com o filme W.A.K.A..

W.A.K.A, primeiro longa metragem de Ellong, foi exibido em sessão especial, marcando também outro traço importante da edição 2014: a presença do Canal+ Afrique, parceria que permitiu um crescimento considerável das JCFA para esta 3a edição.

Calypso Rose

No total foram, durante a 3a edição das JCFA exibidos 34 filmes: 4 longas-metragem africanos e 2 da diáspora, 14 curtas-metragem, 2 ficções em formato digital, 2 filmes de séries de televisão e 11 documentários.

Com destaque para os curtas-metragens de duas jovens burkinenses: Zamaana/ Il est temps! de Zalissa Zoungrana-Babaud, filme vencendor do prêmio para jovens relizadores do FESPACO 2013 e também para Le silence des autres de Aissata Ouarma.

Zoungrana e Ouarma, juntamente com Véronique Kanor, Evelyne Hessou, Amina Abdoulaye, Pascale Obolo, foram laureadas com o troféu Sarrounia, símbolo da JCFA de reconhecimento e estímulo às realizadoras. Também receberam o troféu as atrizes malinesas Viviane Sidibé, estrela do filme Toiles d’Araignées de Ibrahima Touré, e Hélène Diawara, homenageada especialmente durante o evento pelo conjunto de suas atuações.

zougrana

Como acontece desde a 1a edição, o enceramento das JCFA se dá paralelamente à celebração do Dia Internacional da Mulher, momento historicamente consagrado no calendário nacional e de grande mobilização das mulheres na sociedade burquinenses.

Este ano, parte das atividades das Journées se passou em Banfora, cidade a 460 km da capital Ouagadougou escolhida pelo Ministério da Promoção da Mulher de Burkina Faso para as festividades do 8 de Março. No centro da agenda oficial, estava o debate sobre o tema "Empreendedorismo feminino: problemática do financiamento das atividades  econômicas da mulher  de Burkina Faso".

Durante a solenidade, aconteceu um momento importante para as cineastas:  o encontro com o presidente da República, Sr. Blaise Comporé, durante o Fórum Nacional de Mulheres Empreendedoras. Na ocasião, as mulheres de imagem burquineses, representadas institucionalmente pela UNACIB (União Nacional de Cineastas de Burkina Faso) apresentaram sua agenda de reivindicações para um cinema de gênero. O texto foi lido pela cineasta e também diretora das JCFA, Fanta Nacro. As femmes de l'image apresentaram quatro reivindicações principais, a seguir um resumo:

  •  benefícios fiscais e isenção de impostos, para a realização das atividades audiovisuais;
  • criação de um fundo específico para as mulheres produtoras, para que seja possível que elas tenham créditos reais para investimentos rentáveis;
  • estabelecimento de um dispositivo de linha de subvenção para impulsionar o ritmo das produções femininas, reforçando também as capacidades técnicas no universo da produção cinematográfica;
  • reconhecimento e consideração do ponto de vista das mulheres em posições de liderança no país no que diz respeito às grandes questões da vida das instituições e da nação burquinense.

Após o encontro do o Presidente, o evento seguiu com exibição de filmes, debates com as diretoras e atrizes e a premiação final com a entrega dos troféus Sarrounia.  Enquanto isso, em Ouagadougou, as atividades seguiram com projeções acontecendo simulatemanente nas duas salas do Institut Français e com as oficinas de roteiro e montagem.

O FICINE na 3a JCFA

   

Eu já havia participado da 2a JCFA em 2012, mas na ocasião estive apenas como pesquisadora. Dessa vez, além de assistir os filmes e debates, eu e Janaína Damaceno tivemos a oportunidade de participar  intensamente do evento, da última reunião das organizadoras antes do evento na sede do FESPACO aos momentos finais do último dia de exibição de filmes. Na ocasião da reunião antes do início, discutiu-se a agenda das Journées, mas principalmente, falaram das questões a serem apresentadas ao Presidente em Banfora, citadas acima.

Nossa contribuição foi, sobretudo, apresentar um olhar mais próximo sobre o papel da mulher negra no audiovisual brasileiro, levando para o público burquinense um pouco da complexidade do questão racial no Brasil, tema que de um modo geral é ignorado no exterior. Pois, da mesma forma que nós, do lado de cá da diáspora, temos em nosso imaginário uma África idealizada, do lado de lá, se passa o mesmo. Somos o país da alegria, da dança, do futebol. Onde não existe preconceito, muito menos racial. O espanto de muitos ao ter um primeiro contato com a questão racial brasileira foi fato recorrente. Assim que, no intuito de travar este primeiro encontro, nossa paricipação teve duas partes: uma exposição de fotografias e uma palestra.

No prédio principal da sede do FESPACO há uma área interna circular, um hall, onde alguma produtoras e pesquisadoras mostravam seus trabalhos em stands durante os dias da JCFA. Foi neste hall que montamos nossa exposição de fotos, Un regard sur la femme noire d’image au Brésil. A idéia foi fazer um breve panorama em imagens sobre a participação das mulheres negras no cinema brasileiro.  Mostramos então algumas imagens de atrizes, diretoras, roteiristas, técnicas de destaque na área do audiovisual brasileiro, juntamente com um breve texto explicativo.

Além da exposição, fizemos também uma apresentação do site do FICINE, e do projeto como um todo,   durante a mesa-redonda composta pelas  mulheres de imagem da diáspora. Falamos em uma tarde de calor típica de Ouagadougou, no ISIS, Institut Supérieur de l'Image et du Son. A mesa, composta por mim, Mariette Montpierre, Véronique Kanor e Pascale Obolo, tratou dos aspectos gerais que concernem a realização de um festival direcionado para o protagonismo feminino, exaltando a iniciativa do festival mas também chamando atenção para alguns pontos que precisam ser levado em conta na avaliação das organizadoras para a realização da 4a edição em 2016. Falamos, principalmente, da necessidade de existir uma dimensão mais produtiva, de oficinas das quais saiam pequenas peças audiovisuais a serem exibidas ainda antes do fim das Journées.

Les femmes de l'image de la diaspora

Nós do FICINE, aproveitamos para sugerir que o tempo para estas atividades das quais resultem filmes, deve também prever um momento de reflexão e debate sobre as imagens produzidas e também sobre o processo de produção como um todo. Entendemos que para que haja mesmo um salto qualitativo nas produções audiovisuais é fundamental que as realizadoras, técnicas, atrizes, produtoras, etc., se apropriem também da reflexão e da crítica. Já não há mais condições de mantermos afastadas a prática do pensamento crítico. Pensar é uma prática, deixemos para trás essa velha dicotomia do pensamento ocidental.

Por fim, outro ponto relevante, colocado pelas debatedoras da diáspora e também comentado por Fanta Nacro, vice-diretora das Journées, diz respeito à coincidência do calendário das JCFA com a celebração do Dia Internacional da Mulher.  Este é um assunto que precisa ser considerado, pois a mobilização da festa acaba, por vezes, ofuscando um pouco o evento. Nacro afirmou ser este um ponto central e que considera que o fim do descolamento da festa - este foi o último ano que a celebração oficial ocorre fora de Ouagadoguou - é um fator que deve ajudar no que diz respeito à presença do público e também da visibilidade do evento.

Para nós, de 2012 para 2014, o saldo do evento é positivo. Cresceu-se em tamanho, mas também em qualidade. Foram dias incríveis.  Filmes de ótima qualidade, debates produtivos e muita alegria dos encontros.

Salve as Journées Cinématographiques de la Femme Africaine de l'Image!

Que venha 2016!

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*Foto1: Amina Abdoulaye, Michel Ouedraogo (presidente do FESPACO), Zalissa Zoungrana e Evelyne Hassou. (foto: divulgação/FESPACO)

** Foto2: "Les femmes de l'image de la diaspora", Janaína Damaceno, Janaína Oliveira, Véronique Kanor, Pascale Obolo, Mariette Montpierre. (foto: arquivo Janaína Oliveira)

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 Veja aqui algumas fotos desta itinerância do FICINE em Burkina Faso.

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E fiquem atent@s: alguns dos filmes exibidos na JCFA estarão em cartaz durante o 7o Encontro de Cinema Negro, que acontecerá no Rio de Janeiro entre 21 e 30 de março, contando também com a presença de algumas cineastas. É o caso do brilhante Moi Zaphira, da diretora burkinense Apolline Traoré.  Clique aqui para ver a programação.

 
  

Janaína Oliveira

Pesquisadora, é doutora em História pela PUC-Rio e professora desta disciplina no Instituto Federal do Rio de Janeiro – Campus São Gonçalo, onde coordena o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígena (NEABI). Realiza pesquisas centradas na reflexão sobre Cinema Negro, no Brasil e na diáspora, e também sobre as cinematografias africanas, sempre buscando conexões que possam incidir também na área da educação das relações étnicorraciais. Desde 2009, orienta o projeto de pesquisa “Cinegritude: reflexões sobre a invisibilidade das produções cinematográficas africanas e afro-brasileiras na contemporaneidade”. Desde 2011 participa ativamente do FESPACO, Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou e da JCFA, Journée Cinématographique de la Femme Africaine d’Image, ambos em Burkina Faso. Foi consultora do Ministério da Cultura e das Organizações das Nações Unidas. É membro também do CODESRIA (Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais em África). Recentemente, fez curadoria de filmes para as duas edições do Plateau – Festival Internacional de Praia, Cabo Verde. No Brasil, fez curadoria para a Mostra de Filmes Africanos do FINCAR - Festival Internacional de Cinema Realizadoras (PE), a 7a edição do Cachoeira Doc (BA), para o Diálogos Ausentes do Itaú Cultural - módulo de Audiovisual (SP) e para a 8a Semana dos Realizadores (RJ). Atualmente é curadora do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul. Faz parte da APAN (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro). É idealizadora e coordenadora do FICINE, Fórum Itinerante de Cinema Negro (www.ficine.org).
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