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No país dos homens íntegros

05.03.2014 | Janaína Damaceno |

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Em 1984, a República do Alto Volta foi rebatizada pelo seu presidente Thomas Sankara - uma das maiores lideranças africanas, comparado na América Latina à figura de Che Guevara - como Burkina Faso ou o país dos homens íntegros, seu significado em morê e dioula, duas das principais línguas do país.  O "País dos homens íntegros", tem como capital a cidade de Ouagadougou que significa "respeito aos mais velhos". (Chore!)  Ouaga (Uagá) é uma cidade de mais de 1,5 milhões de habitantes, extremamente agitada como toda metrópole e com uma vida cultural bastante intensa. Se você é um daqueles que acha que respira diversidade por beber no Baixo Augusta e que é super descolado por morar em Santa Teresa, esqueça. Andando por Ouaga você vai descobrir que qualquer senhor tuareg é muito mais descolado que você.

Não dá para andar uma quadra em Ouaga, sem sentir uma vontade imensa de que mesmo com o seu péssimo francês alguém te ofereça um trabalho por aqui.

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Desde o dia 27 de fevereiro à convite do FESPACO, Janaína Oliveira e eu (do FICINE) estamos em Burkina Faso para participar da Jornada Cinematográfica da Mulher Africana de Imagem (JCFA), para estabelecer parcerias com produtores, críticos e cineastas africanos, além de realizar  entrevistas com cineastas deste país que tem uma profunda relação com o cinema... mesmo! Perguntando ao garçom de nosso hotel se todo mundo de Ouagadougou, a capital do país, sabia o que era o FESPACO, ele respondeu desdenhosamente que sim e que já tinha ido algumas vezes à abertura do festival. Saindo às ruas, a situação se repete. Há, inclusive, uma praça em homenagem ao cinema: a Place des Cineastes, atrás dela se enfileiram as estátuas de quatro cineastas. Um lugar que tem estátua de cineasta, vivo! Você já pode imaginar este lugar.

O FESPACO é um dos mais tradicionais festivais de cinema do mundo e colocou Burkina Faso na rota dos festivais internacionais. O país também se empenhou em formar grandes cineastas como Idrissa Ouedraogo, cujos filmes foram exibidos no Brasil em mostras como a Mostra de Cinema de São Paulo e o Festival do Rio. Ouedraogo foi vencedor do Urso de Berlim em 1993 e de Cannes em 1990. Um dos seus filmes mais conhecidos pelo público brasileiro é seu curta metragem no filme 11 de setembro. Na sua história, um menino crê ter visto Osama Bin Laden escondido numa das ruas de Ouaga e pretende encontrá-lo pois está interessado em receber uma recompensa para comprar remédios para a sua mãe.

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Chegamos em Ouagadougou no dia do lançamento de Grisgris de Saleh Haroun no Instituto Francês. Grisgris narra a história de um bailarino que se vê envolvido com um grupo de bandidos após tentar ajudar o padrasto a pagar a conta do hospital. No meio do caminho surge uma moça bonita que altera o destino da história. Assistir o filme num dos típicos cinemas de Ouaga não tem preço. Muitos dos cinemas do país, que tem uma extensa parte desértica, são anfiteatros ao ar livre.

Saleh Haroun do Chade e Soulémane Démé de Burkina Faso, respectivamente, diretor e protagonista do filme estavam presentes e participaram de um debate com o público ao final da sessão, onde se debateu desde os reflexos da influência da dominação colonial no audiovisual até questões sobre a representação do islamismo. Outras celebridades como Gaston Kaboré e o próprio Idrissa Ouedraogo também estavam por lá, além de um grande número de atores, diretores, estudantes, críticos (eles têm uma associação bem forte, mas isso fica para outro post) e produtores de cinema, descolados, estrangeiros e duas freiras. Com a lotação esgotada, uma pequena multidão ficou para o lado de fora do cinema.

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O público acompanhou atentamente do filme, torcendo para os seus heróis e condenando os vilões. Alguns levantaram-se das cadeiras em alguns momentos para expressar ainda mais a sua alegria, apreensão ou indignação. Claro, como em todos os lugares sempre há alguém com um celular na mão, mandando uma mensagem desnecessária para alguém, mas ainda assim isso ocorreu menos que nos cinemas do Rio. O que encanta nas exibições em Ouaga é que aqui parece que o cinema ainda mantém a sua aura, a sua magia e a arquitetura dos teatros juntamento com a participação do público são os responsáveis por isso.

Siga os próximos posts para saber mais sobre o cinema de Burkina Faso e acompanhar nossas entrevistas com cineastas, produtores e atores que participaram do JCFA. Entrevistamos também o Soulémane Démé! Ele é o cara!

Veja o trailer de Grisgris!

 
  

Janaína Damaceno

Doutora em Antropologia pela Universidade de São Paulo (2013) e Mestre em Educação pela UNICAMP (2009), produtora audiovisual e fotógrafa. Tem experiência na produção de cinema e vídeo, tendo atuado como produtora e diretora de curtas e programas de TV, com destaque para a realização, como produtora, da TV Povos do Mar e do documentário Quilombos Paulistas. Dirige com Victor Epifanio a série Roteiros Negros. Já produziu filmes em parceria com ONGs da Alemanha e para a UNICEF. Suas pesquisa giram em torno da relação entre educação, cinema e fotografia negros. Realizou a exposições Quilombos, no Espaço Unibanco de Cinema e na Universidade de São Paulo. No momento, está preparando a exposição Barroco Animado, sobre a cultura infanto juvenil na área rural de Mariana e Ouro Preto, Minas Gerais.
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