Fórum Itinerante de Cinema Negro

Artigos

Ciné Guimbi: cinema e resistência em Burkina Faso

25.02.2014 | Janaína Oliveira | , ,

photo_menorNão é só no Brasil que espaços dedicados à exibição de filmes são fechados e transformados em igrejas, estacionamentos e shoppings. Em Burkina Faso, assim como em outros países da África, este triste processo também anda amplamente em curso.

Burkina Faso, país situado no centro-oeste africano e pouco conhecido dos brasileiros, é uma referência quando falamos em cinema africano. Acontece em sua capital o maior festival do continente, o FESPACO (Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ougadougou). É também terra natal de cineastas renomados (Gaston Kaboré, Dany Kouyaté, Moustapha Dao, Idrissa Ouedraogo só para citarmos alguns) e o centro de uma nova onda de jovens cineastas saídos de escolas de cinema locais. Contudo, ainda assim, em Burkina os espaços de cinemas também deixam gradualmente de existir.

Por lá, o fechamento das salas de cinema coincidem com o fim de um processo histórico marcado pela presença maciça do Estado na gestão da indústria cinematográfica, incluindo no que diz respeito à distribuição de filmes e manutenção de salas. No ano de 2003, foi extinta a Sociedade Nacional de Exploração Distribuição Cinematográfica de Burkina  Faso (SONACIB), instituição criada nos anos 1970 durante os primeiros momentos da forte nacionalização do setor. Com o fim da SONACIB, a maioria das salas de projeção foram vendidas à iniciativa privada, que as transformaram em supermercados, garagens de ônibus, templos religiosos.

Um caso emblemático deste processo é o que acontece na antiga capital do país, a cidade de Bobo-Dioulasso. Lá, o fechamento da SONACIB levou à extinção as duas últimas salas que ainda resistiam, deixando seus 600.000 habitantes sem espaços adequados à projeção de filmes. Assim, desde 2005, não existem salas de cinema na cidade. Esta situação estimulou a Associação de Apoio ao Cinema de Burkina Faso (Association de Soutien au Cinéma du Burkina Faso), composta por realizadores e profissionais de imagem, a iniciar um movimento pela restauração de um antigo cinema ao ar livre da cidade de Bobo, o Ciné Guimbi.

Construído em 1956, o Ciné Guimbi faz parte do história do cinema em Burkina Faso. Os filmes lá exibidos incentivaram gerações de cineastas, como ressalta o cineasta Gaston Kaboré, ao falar da importância das sessões no Guimbi para a sua. "A meu ver, o Cine Guimbi é um elemento mítico do patrimônio cinematográfico nacional. Entre 1964 e 1970, eu assisti filmes nesta sala que ajudaram a fundamentar os conceitos básicos sobre a sétima arte durante a minha adolescência”, diz o diretor que nasceu em Bobo-Dioulasso.

Kaboré faz parte da Associação de Apoio ao Cinema de Burkina Faso . Criada em 2011, a Associação tem por objetivo buscar meios, financeiros inclusive, para a manutenção e expansão do cinema em Burkina. E ainda que seja uma organização sem fins lucrativos, ela chama para si a responsabilidade de encontrar parcerias e  também gerir o fundo de apoio à produção cinematogrática, criado na mesma época. É neste cenário que se enquadra a campanha Il faut sauve le cine Guimbi (“É preciso salvar o cinema Guimbi”), que luta pela revitalização do cinema e é umas das iniciativas centrais da Associação no momento.

Hoje, no local do Guimbi, há apenas o terreno murado, com a tela para projeção e vestígios bancos, todos feitos de cimento. Há também atrás da tela, um esqueleto da antiga sala de projeção.

photo3_menor                

A proposta de revitalização pretende adquirir o terreno e nele construir duas salas de cinema cobertas, com capacidade de 172 e 323 lugares respectivamente. Além de representar o resgate de um patrimônio histórico de Bobo, a Associação entende que, uma vez restaurado, o Ciné Guimbi possa se tornar um centro de referência cultural para a sociedade local. Abrigando em sua programação, além da programação de filmes semanal, também outras atividades tais como a formação de crianças e adolescentes na área do audiovisual (“educação da imagem”, como eles dizem no projeto), e  iniciativas inclusivas multidimensionais para mulheres e outros grupos. .

photo 1_menor

Para além da programação cotidiana de filmes e atividades sócio-educativas,  há também a proposta da realização de ao menos dois grandes eventos de cinema. Um festival anual, o Guimbi Festival, realizado em parceria com diversos festivais mundiais. E, bienalmente, o Guimbi será o núcleo do FESPACO em Bobo (o FESPACO é parceiro do projeto desde 2013).

E para aqueles que desacreditam da viabilidade do projeto, os organizadores da proposta de revistalização garantem que as experiências bem sucedidas dos cinemas em salas de Ouagadougou e em cidades secundárias mostram que existe sim público para o cinema comercial em Burkina Faso. E mais: segundo eles, o caso do Ciné Guimbi é um símbolo da grave ameaça que paira sobre os cinemas na África. De tal forma que contribuir para o seu resgate é uma ação que visa manter um patrimônio que é ao mesmo tempo local e universal.

Nós do FICINE louvamos a iniciativa da Associação de Apoio ao Cinema de Burkina, na expectativa que não só o Ciné Guimbi volte a funcionar, mas que por todos os lugares onde salas de cinema estejam sendo fechadas, haja algum tipo mobilização para reversão destas situações.

--------

Abaixo, assista algumas falas dos que vivenciaram os momentos áureos do Ciné Guimbi.

Spot Cinéma Guimbi - Les anciens se souviennent from Cinémas d'Afrique on Vimeo.

--------------

*Agradecemos a Association de Soutien au Cinéma du Burkina Faso pelas fotos e o material de projeto que serviu de base para este post.

Leia mais aqui sobre o projeto “Il faut sauve le Cine Guimbi”. Divulgue! Apoie!

Sobre o fim da SONACIB, indicamos o artigo de Gervais Hein "Burkibna: la SONACIB privatisée", no site Africultures.

 
  

Janaína Oliveira

Pesquisadora, é doutora em História pela PUC-Rio e professora desta disciplina no Instituto Federal do Rio de Janeiro – Campus São Gonçalo, onde coordena o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígena (NEABI). Realiza pesquisas centradas na reflexão sobre Cinema Negro, no Brasil e na diáspora, e também sobre as cinematografias africanas, sempre buscando conexões que possam incidir também na área da educação das relações étnicorraciais. Desde 2009, orienta o projeto de pesquisa “Cinegritude: reflexões sobre a invisibilidade das produções cinematográficas africanas e afro-brasileiras na contemporaneidade”. Desde 2011 participa ativamente do FESPACO, Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou e da JCFA, Journée Cinématographique de la Femme Africaine d’Image, ambos em Burkina Faso. Foi consultora do Ministério da Cultura e das Organizações das Nações Unidas. É membro também do CODESRIA (Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais em África). Recentemente, fez curadoria de filmes para as duas edições do Plateau – Festival Internacional de Praia, Cabo Verde. No Brasil, fez curadoria para a Mostra de Filmes Africanos do FINCAR - Festival Internacional de Cinema Realizadoras (PE), a 7a edição do Cachoeira Doc (BA), para o Diálogos Ausentes do Itaú Cultural - módulo de Audiovisual (SP) e para a 8a Semana dos Realizadores (RJ). Atualmente é curadora do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul. Faz parte da APAN (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro). É idealizadora e coordenadora do FICINE, Fórum Itinerante de Cinema Negro (www.ficine.org).
Outros artigos do autor:
Bem Vindos!
Por um cinema africano no feminino (I): as Jornadas Cinematográficas da Mulher Africana (JCFA)
Um ano sem Zózimo Bulbul
Ciné Guimbi: cinema e resistência em Burkina Faso
Por um cinema africano no femino (II): o FICINE na 3a edição das Journées Cinématographiques de la Femme Africaine de l’Image
A continuidade do sonho de Zózimo: notas sobre VII Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe/Zózimo Bulbul
Descolonizando telas: o FESPACO e os primeiros tempos do cinema africano (parte 1)*
Descolonizando telas: o FESPACO e os primeiros tempos do cinema africano (parte 2)*
10 anos do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, uma edição histórica
Para Zózimo, com carinho