Fórum Itinerante de Cinema Negro

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Um ano sem Zózimo Bulbul

24.01.2014 | Janaína Oliveira |

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Em 24 de janeiro de 2013, faleceu Zózimo Bulbul, o grande símbolo do Cinema Negro no Brasil.

O FICINE tem em Bulbul uma fonte de inspiração. Por este motivo, criamos aqui em nossa página um espaço permanente dedicado à obra de Bulbul. Não só como homenagem ao mestre, mas também como forma de contribuir para o fim da invisibilidade que infelizmente marca os feitos dos negros e negras na história do Brasil, sobretudo quando falamos de cinema.

Leia  a seguir  "Zózimo Bulbul e o Cinema Negro",  texto que você encontra na sessão permanente de nosso site.

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70 anos. Era esta a idade de Jorge da Silva, mais conhecido como Zózimo Bulbul, quando iniciou a empreitada de sua vida: a criação de um pólo de cinema negro no coração da cidade do Rio de Janeiro. Assim, em 2007, Zózimo deu início às atividades do Centro Afro Carioca de Cinema, um quilombo de cinema na Lapa, como ele mesmo afirmava.

À esta altura ele já tinha consolidado uma carreira como ator e cineasta. Uma das mais marcantes personagens do cenário de cinema brasileiro, surgido no contexto do Cinema Novo, Bulbul estreou como cineasta nos anos 1970 com o “Alma no Olho”, uma reflexão sobre a vinda dos africanos para a diápora ao som de John Coltrane. Deste momento até 2012, Bulbul dirigiu mais nove curtas-metragens e um longa, Abolição, sempre caracterizados pela valorização cultural do negro e da África,  no combate ao racismo que nos invisibiliza no cenário do Brasil contemporâneo.

Além, dos filmes, Zózimo Bulbul, realizou os Encontros de Cinema Negro, entre 2007 e 2012. Os Encontros de Cinema Negro são o principal legado de Zózimo no Centro Afrocarioca.

 

Realizados entre 2007 e 2012, e com o próximo marcado para março de 2014, os Encontros representam um marco na história do Cinema Negro no país, pois não só retomam uma discussão sobre a consolidação do campo das cinematografias negras no mundo como também significam um posicionamento político a respeito destas produções. Pois na perspectiva de Bulbul não havia dúvida: para ter filme exibido em seus Encontros, o/a realizador/a tinha de ser negro/a. Cinema Negro, tal como ele concebia, era o fruto de subjetividades negras projetadas na tela.

 

Este posicionamento rendeu a Zózimo adjetivos como “polêmico” e “controverso” o que, muitas vezes, ofuscava seu feito mais relevante: promover encontros. Encontros entre cineastas negros, do Brasil e da diáspora, e cineastas africanos. E, talvez o mais importante, encontros do público brasileiro com os filmes, com o cinema negro, e também com seus realizadores.

 

O FICINE tem em Zózimo Bulbul sua fonte de inspiração. Neste sentido, concordamos com Noel Carvalho quando ele dá a Zózimo o título de inventor do cinema negro brasileiro. Para nós do FICINE, falar em cinema negro no Brasil é falar da obra de Zózimo Bulbul, é tê-la como referência.

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Filmografia de Zózimo Bulbul, diretor

    • Alma no olho (1974) 
    • Aniceto do Império (1981)
    • Abolição (1988)
    • Pequena África (2002)
  • Samba no Trem (2005)
  • República Tiradentes (2005)
  • Zona Carioca do Porto (2006)
  • Referências (2006)
  • O primeiro olhar (2009)
  • Renascimento Africano (2010)
  • FESPACO (2011)
  • C.A.I.S (2012)
 

Veja também entrevistas com Zózimo Bulbul do Acervo do CULTNE, acervo digital da cultura negra e também do programa 3a1 da TV Brasil.

 
  

Janaína Oliveira

Pesquisadora, é doutora em História pela PUC-Rio e professora desta disciplina no Instituto Federal do Rio de Janeiro – Campus São Gonçalo, onde coordena o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígena (NEABI). Realiza pesquisas centradas na reflexão sobre Cinema Negro, no Brasil e na diáspora, e também sobre as cinematografias africanas, sempre buscando conexões que possam incidir também na área da educação das relações étnicorraciais. Desde 2009, orienta o projeto de pesquisa “Cinegritude: reflexões sobre a invisibilidade das produções cinematográficas africanas e afro-brasileiras na contemporaneidade”. Desde 2011 participa ativamente do FESPACO, Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou e da JCFA, Journée Cinématographique de la Femme Africaine d’Image, ambos em Burkina Faso. Foi consultora do Ministério da Cultura e das Organizações das Nações Unidas. É membro também do CODESRIA (Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais em África). Recentemente, fez curadoria de filmes para as duas edições do Plateau – Festival Internacional de Praia, Cabo Verde. No Brasil, fez curadoria para a Mostra de Filmes Africanos do FINCAR - Festival Internacional de Cinema Realizadoras (PE), a 7a edição do Cachoeira Doc (BA), para o Diálogos Ausentes do Itaú Cultural - módulo de Audiovisual (SP) e para a 8a Semana dos Realizadores (RJ). Atualmente é curadora do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul. Faz parte da APAN (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro). É idealizadora e coordenadora do FICINE, Fórum Itinerante de Cinema Negro (www.ficine.org).
Outros artigos do autor:
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Para Zózimo, com carinho