Fórum Itinerante de Cinema Negro

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Ideias Pretas em Nuvens

11.01.2017 | Ana Julia Travia  |

Gostaria de utilizar esse espaço que me foi cedido para refletir um pouco sobre os acontecimentos atuais que envolvem parte do cinema negro brasileiro contemporâneo e também para analisar objetos que são poucos analisados aqui. Sairei do “cinemão” para falar da produção audiovisual para internet e do contexto que rodeia a produção e aquilo que acontece nos bastidores, fora das telas dos cinemas.

Gostaria também de pontuar que eu falo de um lugar muito privilegiado e ao mesmo tempo pouco distanciado considerando minha recente formação em cinema e minha participação relativamente ativa na efervescência política que envolve muitos cineastas negros. Por isso já peço perdão porque acredito que essa análise possa ser superada em breve.

Das mostras, festivais e eventos de cinema

Durante ano de 2016 houve uma tendência, se assim posso dizer, pois vários eventos, mostras e festivais de cinema decidiram convidar diferentes cineastas negros para comporem mesas de debate. Isso aconteceu no Festival de Gramado, na Mostra de Brasília e na Mostra Mulheres em Cena realizada em outubro, em São Paulo no CCBB. Esses só são os casos que eu soube e no último, consegui estar presente. Não sei se foi por conta da pressão feita pelos próprios cineastas negros, mas não foi uma tomada súbita de consciência que fez com que eles percebessem a quase completa inexistência de cineastas negros num país cuja população tem 54% autodeclarados negros.

Contudo, na maioria desses eventos, a presença de cineastas negros falando da importância do protagonismo negro, era marcada paradoxalmente pela ausência de filmes dos diretores participantes ou pela total ausência de filmes dirigidos por cineastas negros na mostra.

Na mesa da Mostra Mulheres em Cena, na qual chamaram as cineastas Adélia Sampaio e a Viviane Ferreira, o público cobrou uma atitude mais coerente da curadoria no futuro, pois não era concebível que a primeira cineasta negra brasileira a fazer um filme de ficção não tivesse nenhum filme presente numa mostra que pretendia contemplar mulheres no cinema latino-americano.

Viviane Ferreira e Adélia Sampáio durante a Mostra Mulheres em Cena (Fotos: Marina Fuser)

Ao meu ver, essa postura, definitivamente, vai em direção contrária à fala de pessoas que afirmam idealizar um cenário artístico mais diverso. Pode-se convidar cineastas negros para mesa, mas também é necessário a exibição dos filmes desses cineastas, pois não adianta nada ser a favor da existência de um cinema negro se não oferecer espaço para exibição dessas produções. A desculpa “Eu não conheço realizadores negros” não será mais tolerada, porque a internet e os sites de busca existem e, inclusive, pessoas negras se mobilizaram para criar sites e organizações como: Mulheres Negras no Audiovisual, o Afroflix, a APAN (Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro) etc. Os curadores que se afirmarem porta-vozes da diversidade serão cobrados, porque não adianta possuir um discurso que se autoproclama novo e inclusivo se for para lidar do jeito que sempre lidaram com a sub-representatividade dos negros, das mulheres e da comunidade LGBTT.

http://associacaoapan.wixsite.com/apan

Do cinema negro brasileiro ou daquilo que fazemos

 

O cinema negro é um termo muito abrangente que pode se referir:

  •  a produção em si: se no filme os protagonistas e parte majoritária do elenco é negro;
  • aos bastidores da produção: se a equipe é composta por profissionais negros;
  •  e ao tema trazido pelo filme: se o assunto é pertinente às questões raciais e ao movimento negro.  Entre outros critérios.

Entretanto, não cabe aqui definir esse termo nem é esse meu objetivo. Talvez cinema negro seja tudo isso e mais um pouco, mas deixo essa questão aos meus amigos pesquisadores que também escrevem para esse site.

Contudo, existe uma questão que não é consenso entre os cineastas negros: Se o que cineastas negros produzem é ou não, cinema negro, só pelo fato de serem pessoas negras contando histórias de personagens negros. Ora, é claro que se uma história de amor que se passa no século 19 na Dinamarca é universal, uma história de amor que ocorre na década de 1980 em Moçambique também deveria ser, mas não é o que acontece. Os produtores não veem as coisas assim,  muito menos os distribuidores, nem os exibidores e consequentemente, nem o público. Por isso, eu acredito que politicamente essa negação é um tiro no pé.

Como exemplo podemos analisar o que aconteceu na literatura feminina, ou seja, produção literária escrita por mulheres, e assim traçar um paralelo para entender o que acontece conosco atualmente. Assim, como críticas literárias feministas (ou não) passaram anos estudando se existe um olhar mais feminino na produção de escritoras mulheres, essa pergunta ainda parece não ter resposta ou não é muito interessante respondê-la, porém sabe-se que a presença feminina no meio literário é algo raro e por isso se faz necessária a celebração dessa ocupação quando existente.

Ao sermos questionados sobre o tipo de cinema que nós fazemos, acredito ser bem importante defini-lo como negro. Porque o que importa é que são cineastas negros contando essas histórias. Isso é muito significativo e deve ser levado em conta e reforçado, como fazem na literatura afrobrasileira.

Ao meu ver, devemos lutar para que o cinema hegemônico brasileiro seja qualificado como branco e elitizado, porque as pessoas tem que entender que se existe um negro, existe um branco. Nenhum dos dois devem ser considerados padrão. Ainda não temos como nos livrar das definições, precisamos compreendê-las, entender o significa ser um cineasta negro levando em consideração toda a trajetória negra dentro do cinema brasileiro.

De uma experiência que pode ser um apontamento

A partir das minhas últimas considerações, gostaria de falar um pouco da produção audiovisual que vem aumentando cada vez mais no Facebook. A rede social começou a estimular e priorizar fortemente conteúdos audiovisuais e a minha timeline quase se tornou um canal de televisão. Mesmo sem querer, eu já estou zapeando conteúdos pelos quais eu não pedi mas que o Facebook prontamente me oferece, baseado no cálculo dos  meus gostos, pelos meus amigos e pelas antigas curtidas.

Um conteúdo que acompanhei de perto o desenvolvimento foi o Empoderadas. Idealizado em 2015 pela Renata Martins, contou também com a parceria de um ano da Joyce Prado, a websérie é um programa de em formato documental como descrita na própria página do Facebook:

Empoderadas é uma websérie em formato documental que visa apresentar mulheres negras das mais distintas áreas de atuação (artes, entretenimento, política, empreendedorismo e outras); que possibilitam o empoderamento das demais mulheres.

A iniciativa da Renata foi pioneira, se assim eu posso dizer, porque a proposta dela possui um caráter triplo: entrevistar mulheres negras em distintas áreas, empoderar as mulheres que assistem e, por último, o que eu considero o aspecto mais importante : empregar mulheres negras atrás das câmeras.

Renata Martins (foto: Nuna)

Não consigo não relacionar a atitude da Renata com o discurso da Viola Davis que há algum tempo já é um viral na rede social, o famoso discurso em que ela recebe o Grammy por melhor atuação em How To Get Away With A Murder e nos agradecimentos diz algo como “Não há a possibilidade de reconhecer o trabalho de mulheres negras, se não houver papéis para mulheres negras.”

A Renata fez no Empoderadas um espaço de empoderamento ao pé da letra, pois esse espaço virtual tornou-se um espaço real de formação de profissionais negras do audiovisual, pois a equipe da websérie é sempre composta por mulheres negras.

A qualidade dos episódios a cada programa da primeira à segunda temporada é muito nítida. A partir da segunda temporada, Renata convidou diferentes diretoras negras para realizarem diferentes episódios. Precisamos de mais atitudes como essa no que diz respeito a formação das equipes negras no meio audiovisual. Contudo, o que eu noto cada vez mais é a presença de conteúdos documentais que priorizam a entrevista muito parecidos com Empoderadas sem o caráter político da formação da equipe.

Um episódio que eu gostaria de analisar do Empoderadas é o segundo episódio da primeira temporada, da Thais Dias, atriz do coletivo negro. O episódio mostra a rotina de preparação, de ensaios e apresentação da atriz, e ao meu ver é quase um manifesto do próprio programa. Obviamente,  todos os episódios podem ser considerados um manifesto porque tratam da negritude de diversas mulheres, mas acredito que esse vídeo é emblemático porque a Thais se pensa enquanto corpo negro feminino em cena, ela pensa na representação da mulher negra tal como o programa, só que no teatro.

Nos primeiros minutos do episódio, acontece uma parceria muito interessante entre a câmera e a imagem de Thais. No som, escutamos a atriz contando sua trajetória; na imagem, vemos seu rosto em retalhos: olhos, boca, bochecha, perfil do rosto em planos próximos e detalhes; em preto e branco. Conseguimos ver seu rosto por completo, frontalmente e colorido pela primeira vez através do espelho, somente quando ela diz que tornou-se consciente de o “ser negra” em São Paulo, a partir de sua experiência de viver em outra cidade, longe dos familiares, longe das mulheres negras de sua família. Quando ela foi a “outra” em um espaço diferente. Ela se percebe estranha e ao mesmo tempo, potente. Não sabemos se sua trajetória é só essa depois que ela chegou em São Paulo, provavelmente não, mas gostaria de destacar esse pedaço dito que ela escolheu ou que diretoras escolheram colocar. Porque esse lugar estranho (São Paulo), pelo menos do modo como foi construído (ou dito), parece que moveu a atriz à direções mais positivas que negativas, pois ela se percebe diferente e não se sente paralisada.

A omissão desse processo; é o que me impressiona, pois atualmente somos bombardeados por histórias de superações de mulheres negras super dramáticas e realmente tristes. Mas parece que ela não precisou disso e nem os espectadores precisam  saber do seu processo, não porque ele não é importante, mas porque é muito mais interessante ver a Thais sendo. Ela é. Sempre foi. E quando houve algum questionamento em relação a isso, ela continuou sendo. Uma mulher bonita mas não só, porque ela possui a autonomia para construir discursos que fogem dos estereótipos do lugar do negro. Estereótipos existentes no imaginário brasileiro que foram construídos principalmente pela literatura branca brasileira e consolidado pelas telenovelas: a empregada, a babá, a mulata fogosa, só pra citar alguns. E mesmo que a fuga se dê pelo oposto do estereótipo por meio do papel de Flora Eunice, a negra e rica, na peça Luz Negra, Thais consegue se desvincular de estereótipos historicamente impregnados nos corpos negros.

Cada vez mais, vejo mulheres negras de diversas regiões do país ganhando voz, mas não vejo para onde podemos ir com esse conteúdo; depois que damos cara e rosto para essas mulheres o que faremos?

Pensamos em produzir o tempo todo e achamos que isso basta, mas o nosso público alvo: a jovem negra, o jovem negro está tendo acesso ao nosso conteúdo?  Não podemos repetir o erro do cinema brasileiro, como nos conta Jean-Claude Bernardet em Historiografia Clássica do Audiovisual Brasileiro que os cineastas brasileiros definiram como marca do surgimento do cinema brasileiro a filmagem de uma câmera recém chegada ao porto do Rio de Janeiro, porém não se sabe quem viu esse material filmado. Enquanto que no restante do mundo leva-se em consideração a experiência cinematográfica vivida por um público, aqui ainda vamos ter essa obsessão pelo nosso filme sem nos preocupar com o público? Ainda mais pensando no público negro, carente aos conteúdos que almejamos produzir. Milhares de mulheres negras expõem suas vidas e suas experiências em relação ao racismo. E agora, José? Quem está vendo isso?

Vejo também pouco avanço ao conteúdo formalmente, repete-se a câmera na mão, a gravação em plano detalhe dos objetos pessoais das personagens que estão sendo entrevistada para sabermos assim mais da personalidade delas. Sabemos mesmo? Queremos saber? Ou elas estão dando rosto a nossa tese? Pede-se todo cuidado ao representação do corpo negro, mas quando está ao nosso favor podemos esquecer da cautela? Este conteúdo repetitivo, feito a exaustão está sendo bem documentado? Ou iremos perdê-lo assim que o feed do Facebook atualizar?

Temos que ter cautela com construção da nossa memória e com preservação dela. Vale a pena fazer um conteúdo parecido a outro que já existe pelo simples fato de reivindicar mais vozes? Eu sempre acredito na pluralidade de vozes abordando qualquer tema, mas os novos conteúdos não podem partir do pressuposto de que não há referência, porque existe o Empoderadas, o Menelick 2º Ato, o Géledes, o Blogueiras Negras, o Alma Preta, o AfroGuerrilha entre outros. Os alicerces da base já estão inseridos e bem fortes, nos cabe como novos realizadores negros continuar a partir dele.

 
  

Ana Julia Travia 

Ana Julia Travia é formada em audiovisual pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Faz parte do coletivo de comunicadoras negras, o BláBláOba e colabora com Empoderadas. Montou e produziu o curta-metragem: "Eu Só Queria Que Você Dissesse". Atualmente, Ana ainda está em fase de finalização de produção do seu filme de conclusão de curso, um documentário intitulado "Outras". Além disso, atua como arte-educadora.