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Descolonizando telas: o FESPACO e os primeiros tempos do cinema africano (parte 2)*

05.12.2016 | Janaína Oliveira | ,

Os primeiros tempos do cinema africano: a criação dos Festivais de Cinema de Ouagadougou.

A necessidade de descolonização das telas de cinema do continente está na base do movimento que faz surgir os festivais de filmes africanos. Foi pensando nesta dimensão que Tahar Cheriaa criou o primeiro festival de cinema do continente: as Jornadas Cinematográficas de Cartago, em 1966, abrindo assim não só uma janela para exibição de filmes mas criando também um espaço político para debate das estratégias a serem seguidas visando a ampliação da difusão e políticas de incentivo à produção de cinema.

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Tahar Cheriaa e Ousmane Sembène

 

As Jornada Cinematográfica de Cartago (JCC) nascem com uma perspectiva de integração geopolítica, contentando com a participação de países abaixo do Saara, tanto que o filme La noire de... de Ousmane Sembène ganhou o Tanit d’or (Tanit de Outro), prêmio da Jornada. Porém, fazem uma distinção entre o que os tunisianos chamam de tradições “africanas” e “árabes” que, segundo a pesquisadora inglesa Lindiwe Dovey, constitui uma das diferenças entre as JCC e o Fespaco e um possível motivo para explicar o fato da menor importância que as Jornadas possuem no contexto continental[1].

De todo modo, Cartago funcionou também como um ponto de encontro para os cineastas e um difusor da vontade por parte do público africano de ver nas telas filmes que contassem suas histórias. É interessante perceber que o clamor por parte dos realizadores por uma cinema africano também se encontra presente em um certo público, formado por amantes de cinema. E foi este público, composto por cinéfilos e críticos, o responsável pelo nascimento do Fespaco - Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou.

O contexto de surgimento do Festival é marcado por histórias diferentes e por vezes contraditórias entre si. Por exemplo, em conversas informais durante o Fespaco de 2015 com estudiosos do cinema e alguns realizadores mais velhos, ouvi uma versão que coloca os realizadores da 1a geração à frente do protagonismo que criou o Festival. Contaram-me que com o intuito de expandir a proposta lançada pelas JCC, isto é, da criação de um festival de cunho pan-africano abaixo do Saara, um grupo de realizadores capitaneados por Ousmane Sembène teria iniciado o processo. Em um primeiro momento, teriam tentado efetivar o projeto em Dakar, que vinha então da realização do Festival de Artes Negras em 1966. O governo senegalês, na figura do presidente Léopold Senghor, teria declinado a ideia, fazendo com que os supostos propositores levassem a ideia para Alto Volta (nome de Burkina Faso então).

Esta versão constitui uma possibilidade atraente pois fornece ao Festival uma origem de renome, ao atribuir sua paternidade ao primeiros realizadores africanos. Contudo, ela não dialoga com algumas dimensões do contexto da época, como por exemplo, o fato de Alto Volta ser um país sem condições financeiras para patrocinar um festival de cinema, passando por uma crise econômica nos primeiros anos após a independência. Como indica a descrição de Colin Dupré:

No fim dos anos 1960, o Alto Volta era um país pequeno entre os mais pobres do mundo. Em 1969, tinha uma população de aproximadamente 5,5 milhões de habitantes. Ouagadougou, a capital, era habitada por cerca de 150.000 pessoas (...). Na mesma época, Dakar contava com quase 400.000 habitantes. Este país encravado no meio do Sahel, não chama muito atenção. Politicamente, o Alto Volta conheceu muitos períodos de instabilidade sem grande destaque[2].

Ao atribuir a iniciativa de criação do festival aos primeiros realizadores africanos articulados ao Estado Voltaico desconsidera-se também o fato de que as políticas de cultura por parte deste mesmo Estado praticamente inexistiam nos anos subsequentes à independência. As dinâmicas culturais daquele momento partem de inciativas privadas, são grupos e associações culturais diversos que movimentam a vida do antigo Alto Volta. O governo de Maurice Yaméogo (1960-1966), primeiro presidente após a independência, caracterizou-se por uma verdadeira apatia com respeito às iniciativas culturais. Esta apatia contudo não contaminava a sociedade. Ao contrário, no âmbito da vida cotidiana, os cidadãos e cidadãs do novo Estado formado ansiavam por dar sequência ao processo de descolonização. E coube à população local tomar esta iniciativa de abandonar a herança colonial e resgatar os valores africanos.

Em termos de articulações na esfera cultural, essa dinâmica se relaciona com o contexto continental. Vivia-se uma efervescência cultural com objetivo de reapropriação da África de suas riquezas e particularidades. A população do Alto Volta não ficou insensível a este movimento que se propagava pelos demais países recém independentes numa onda que marcava a história dos países do assim chamado Terceiro Mundo baseada na convicção que o desenvolvimento econômico e político estava atrelado à descolonização cultural e ideológica. De tal modo que é possível afirmar que na primeira década de independência a história da vida cultural do Alto Volta é marcada pelo papel decisivo da sociedade, isto é, de pessoas desconectadas do poder estatal.

Surgem então numerosas associações universitárias, escolares, étnicas compostas por intelectuais, mas não só. Entre as mais importantes estão a Associação Voltaica para a Cultura Africana (AVCA), criada em 1963 e presidida pelo renomado historiador Joseph Ki-Zerbo e o Círculo de Atividade Literária e Artística do Alto Volta (CALAHV, sigla em francês), liderada por Augustin Sondé Coulibaly.[3] Mais uma vez, na conexão com as tendências continentais, essas associações se integram ao movimento de emancipação se tornando também defensoras de um nacionalismo do ponto de vista interno e de uma atitude pan-africana internacionalmente. De acordo com Dupré, Yaméogo não soube se posicionar em meio aos debates ideológicos dos primeiros anos após a independência da dominação francesa. Já o governo de seu sucessor, o general Aboubacar Sangoulé Lamizana não só percebeu as movimentações das dinâmicas culturais como, curiosamente, elegeu o cinema como aérea de maior interesse, como se verá a seguir.

O cinema se vê representado pelas atividades do Centro Cultural Franco-Voltaico (CCFV) no âmbito das associações culturais que se destacam naquele momento. Em 1968, CCFV realizava frequentemente projeções e debates para um público formado por estudantes, professores e funcionários. Já nas sessões, o público frequentador do cineclube do CCFV, ciente do grau de colonização das telas, não só no Alto Volta mas também no continente, passou a demandar pela projeção de filmes africanos. A esta altura, já circulavam as informações sobre as primeiras produções do continente que ganharam fama através das notícias acerca do Festival de Artes Negras de Dakar e da primeira Jornada Cinematográfica de Cartago, ambos ocorridos em 1966. O afã da reapropriação e afirmação das culturas africanas manifestava-se também nas diversas áreas da produção audiovisual: havia uma demanda por parte dos cineastas, mas também havia um público ansioso por ver suas histórias nas telas.

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Rua de Ouagadougou durante o Fespaco

Foto: Michel Ayrault

Imbuídos da vontade de colaborar para o fim da invisibilidade das produções africanas, os cinéfilos do CCFV reuniram em novembro de 1968 e propuseram a criação de um festival de cinema africano em Ouagadougou para as atividades do ano seguinte. A mesma inquietação de Tahar Cheriaa quando da criação das JCC se percebe presente aqui: além dos filmes, era preciso promover a circulação destas imagens, fazer com que elas chegassem a um público mais amplo. E assim, por duas semanas, entre 1 a 15 de fevereiro de 1969, aconteceu a primeira edição do Festival de Cinema Africano de Ouagadougou, a partir de uma iniciativa privada e desconectada das dinâmicas oficiais do Estado voltaico.

Em realidade, segundo o cineasta Gaston Kaboré houve um verdadeiro lobby da parte de todos envolvidos para conseguir algum tipo de apoio do governo. Por conta disto, foi possível obter descontos em taxações que tornaram possível o orçamento do Festival. Além disto, houve também a colaboração direta do presidente Lamizana que investiu seu próprio dinheiro (algumas centenas de milhares de Francos CFA) para a realização do evento. A edição de 1969 aconteceu sob “a Alta Patronagem do Chefe de Estado”, nome dado a este apoio direto do presidente, mas que não era só formal. Lamizana passou a participar das atividades do Festival, recebendo pessoas (como por exemplo o Diretor Geral da FEPACI – Federação Panafricana de Cineastas) e participando de reuniões. No artigo de Diawara sobre o Fespaco, ele afirma ainda que o Ministério da Cooperação Francesa, “o maior produtor de filmes africanos” nas palavras do crítico malinês, também teria participado da organização[4].

De forma contrária, portanto, ao ouvido nas falas informais durante a última edição do Festival, o Fespaco surge de iniciativa popular e privada, sem grande participação efetiva dos pioneiros do cinema africano e sem o apoio formal do Estado voltaico. Este só viria em 1972, com a institucionalização do evento e a alteração do nome para Festival de Cinema Africano de Ouagadougou para Festival Pan-africano de Cinema de Ouagadougou. Porém, instigada pela hipótese de protagonismo dos pioneiros do cinema africano na elaboração do Fespaco e não tendo encontrado indícios para tal, me perguntei então sobre como teria sido a participação deles neste momento inaugural.

Os pioneiros do Cinema Africano e o Fespaco

 

Afinal de contas, das muitas histórias contadas sobre o Fespaco, são lendárias as que falam das reuniões dos cineastas à beira da piscina no Hotel Indépendence, em uma mesa situada à frente do quarto onde se hospedava Ousmane Sembène. Muito do lugar do realizador senegalês como pai do cinema africano se relaciona às articulações e encaminhamentos resultantes dessas reuniões ocorridas durante o Fespaco.

Para que se tenha uma ideia, há em Ouagadougou uma praça no centro da cidade, no caminho para a sede do Festival, que se chama Praça dos Cineastas.Inaugurada em 1987, tem em seu centro uma escultura que lembram latas de rolos de filmes em películempilhados verticalmente e que, se imaginamos na horizontal, se assemelha a uma câmera. Em frente a esta escultura, no início de uma das avenidas há uma série de estátuas de realizadores que foram ganhadores do prêmio principal do Fespaco. Ali vemos perfilados Gaston Kaboré, Idrissa Ouedraogo, Souleymane Cissè. E a frente de todos, Sembène que nunca ganhou o Étalon de Yennenga mas, como se vê, foi uma figura decisiva na história do Festival. A estátua de Sèmbene foi colocada ali em 2009, em cerimônia de libação durante a 1a edição que aconteceu após sua morte (ocorrida em junho de 2007) e é como um local de “peregrinação” para os que vão ao Fespaco.

   

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Praça dos Cineastas, centro de Ouagadougou

Fotos: Janaína Oliveira (acervo pessoal)

A presença de parte desta geração pioneira de realizadores na primeira edição do Festival de Cinema Africano de Ouagadougou está em grande medida centrada na exibição de seus filmes e na participação dos debates que levaram à ampliação da proposta para a segunda edição em 1970. Deste modo, pode-se afirmar que a iniciativa da criação do Festival de Cinema Africano estava em consonância com as ações dos pioneiros do cinema africano, mas não foi protagonizada pelos mesmos. Dovey em uma breve passagem de seu livro sobre a curadoria de filmes africanos em tempos de festivais de cinema, menciona que Sembène e outros cineastas estariam articulados a este grupo criador do Festival, mas não fornece detalhes a respeito. “O Fespaco iniciou em 1969 como um festival organizado por um grupo de indivíduos, incluindo cineastas como Sembène, vagamente conectados através do Centro Cultural Franco-Voltaico em Ouagadougou”, diz a pesquisadora.[5] Seja como for, todo este cenário nos faz pensar que o mesmo anseio por ver nas telas imagens africanas que levou os cineastas da primeira geração a fazer filmes, também estava presente em certa medida na população local que propôs o festival.

Cerimônia de inauguração da estátua de Ousmane Sembene

na Praça dos Cineastas em Ouagadougou

  Na escassa bibliografia sobre o nascimento do Festival, do mesmo modo que pouco se fala da atuação dos realizadores, pouca atenção também é dada aos antecedentes históricos das políticas culturais de Alto Volta e à conexão com contexto mais amplo do que se passava no continente. De um modo geral, a ênfase nas análises recai sobre a quantidade de filmes e países, os recursos empregados e as dinâmicas culturais surgidas a partir de então. Na argumentação de Dupré, em consonância com os passos de Hamadou Ouegdraogo na obra de referência citada anteriormente, parte-se do estudo das políticas culturais da época para demonstrar a origem popular do Fespaco a partir da iniciativa de um grupo de pessoas que frequentava as sessões do cineclube do Centro Cultural Franco-Voltaico, sendo mesmo possível afirmar que a interação da população burkinabé com o cinema, fato que impressiona a todos que alguma vez já estiveram no Fespaco, está na origem mesma do Festival, tornando sua história ainda mais singular. Durante quinze dias em 1969, Ouagadougou viveu o seu début como centro de referência para o cinema africano. Nesta primeira edição, além de Alto Volta, estavam presentes filmes de 6 países africanos (Senegal, Níger, Camarões, Mali, Costa do Marfim e Benin) e dois países europeus (França e Países Baixos), no total foram exibidos 23 filmes. Todas as obras selecionadas foram exibidas em pé de igualdade[6]. Os filmes de Sembène (Borrom Sarret e La Noire de...), Alassane (O Retorno de um aventureiro, La bague du Roi Koda e Aouré), Oumarou Ganda (Casbacabo), Marcel Camus (Orfeu Negro) e Jean Rouch (Mogho Naba, Bataille sur le grand fleuve e Jaguar) partilharam irmãmente as telas da cidade, por exemplo, com Bambo, filme produzido pelo Câmera-Clube do Liceu Técnico de Bamako pois não havia ainda aqui premiação. Isto porque o objetivo do Festival era “fazer o povo descobrir e promover o cinema africano que era em sua maior parte ignorado. O propósito deste encontro era, portanto, mostrar que existe um cinema africano, que era feito na África, por africanos, com temas africanos” (grifos meus).[7]

Correspondendo à expectativa dos organizadores, a participação do público foi intensa. Nas duas semanas do Festival 10.000 espectadores assistiram os filmes apresentados, nas nove salas disponíveis. Sembène, Alassane, juntamente com Oumarou Ganda e Timité Bassori em entrevista a uma revista local, disseram que o festival lhes satisfizeram plenamente pois o público estava presente e também porque puderam ver produções de outros realizadores africanos. Mais ainda, que o evento se mostrou uma ocasião de encontro e debate sobre o futuro da indústria cinematográfica na África.[8] A entrevista em si aponta para o fato da imprensa também ter se interessado pelo Festival. Assim que dos filmes apresentados, passando pela presença dos cineastas e comparecimento do público, ao interesse da impressa, a primeira edição do Festival de Cinema Africano de Ouagadougou foi um sucesso. Na avaliação de Dupré, este sucesso deve levar em conta, além do papel fundamental dos organizadores do Festival, o investimento pessoal (quase espontâneo) do presidente Lamizana na efetivação do evento.

A segunda edição do Festival de Cinema Africano ocorreu entre 1 e 15 de Fevereiro de 1970 e foi ainda mais bem sucedida que a primeira. Desta vez, além de mais recursos, filmes, países, cineastas e público, o Festival alcançou desdobramentos na política de audiovisual da região que marcaram a história do cinema africano naquele momento. Foram exibidos 37 filmes, entre eles Mandabi (1969) de Sembène, La femme au couteau (1968) de Timité Bassori e La voix (1968) de Slim Riad. No âmbito dos países participantes, a novidade ficou por conta da inclusão dos países do Magreb (Tunísia e Argélia enviaram filmes) e também de Gana. O Festival ampliava de vez seus horizontes, dando início à concretização do ideal pan-africano presente desde o primeiro momento na intenção dos organizadores, se expandindo para além das fronteiras da antiga delimitação colonial francófona. O público praticamente dobrou, atingindo a marca de 20.000 frequentadores, “apesar do desinteresse evidente da imprensa ocidental e um descaso flagrante da Embaixada da França.”[9]

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A nacionalização da distribuição de filmes e das salas de cinema

A respeito das políticas de audiovisual, a edição de 1970 marca um momento singular na história do cinema africano. Neste ano, Alto Volta rompeu com o monopólio das companhias francesas SECMA e COMAICO com respeito à distribuição de filmes e à programação das salas de cinema. Assim como a história do nascimento do Festival tem a singularidade da participação do General Lamizana no financiamento que foi decisivo para sua realização, a nacionalização da distribuição de filmes e das salas de cinema no então Alto Volta contaram com a intervenção decisiva de um militar neste processo. O responsável pela ruptura foi Intendente Militar Tiémolo Marc Garango, então Ministro das Finanças e Comércio. Colocado no poder por Lamizana, Garango era conhecido pela forma austera como lidava com a economia voltaica. O rigor militar era empregado nas ações econômicas com a finalidade última de tirar o Alto Volta da crise pela qual passava. A austeridade era tamanha que a população burkinabé[10] passou a designar o período de recuperação econômica que o Intendente estava a frente do Ministério, 1966 a 1975, de “a Garangosa”.

Com o sucesso das projeções e a presença crescente do público das salas, a renda fruto da bilheteria chamou atenção de Garango que em agosto de 1969, meses após a bem sucedida primeira edição do Festival, criou uma taxa que aumentava em 25% o preço dos bilhetes. O imposto seria destinado às comunas das cidades onde as salas se localizavam. Diante da iniciativa do governo, ambas as companhias monopolistas se viram contrariadas em seus interesses que se recusaram a dialogar com o governo e lançaram um ultimato: caso a taxa não fosse revogada, as salas seriam fechadas no dia 1o de janeiro de 1970.  

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Público durante cerimônia de abertura do Fespaco

Foto: Michel Ayrault

Perante esta dura resposta, Garango tentou ainda mais uma vez algum tipo de diálogo. Outra vez rechaçado pelas empresas que de fato fecharam as salas no dia 02 de janeiro. O governo voltaico reúne então um Conselho Extraordinário para solucionar o problema pois se compreende que o que está em jogo é a soberania do Estado. A esta altura, as autoridades já estavam sensíveis à condição de invisibilidade e das dificuldades de produção e distribuição enfrentadas pelo cinema africano. Soma-se a isto o papel decisivo que um dos fundadores do Festival de Cinema Africano, François Bassolet viria a desempenhar. Segundo Dupré, Bassolet que então era Diretor do Serviço de Informação, foi chamado para participar do Conselho e levou para a discussão as demandas contemporâneas dos cineastas e do movimento de liberação das telas africanas. São estas mesmas demandas que em 1971 resultaram na criação da FEPACI, Federação Pan-africana de Cineastas, instituição que até o presente trabalha na melhoria das condições da produção e distribuição dos filmes africanos[11]. Hamidou Ouédraogo conta que Bassolet convenceu o auditório que era chegada a hora de nacionalizar as salas de cinema. E assim, em 5 de fevereiro de 1970, o General Lamizana assina o decreto que interrompe a “atividade unilateral” em Alto Volta da SECMA e da COMAICO e cria um estabelecimento público de caráter comercial e industrial, voltado para exploração das salas de cinema e distribuição de filmes no território nacional, assim como da promoção das atividades relacionadas direta ou indiretamente ao cinema, a SONAVOCI, Sociedade Nacional Voltaica de Cinema.

A iniciativa de nacionalização das salas de cinema e dos mecanismos de distribuição e produção de filmes, aliados ao sucesso da segunda edição do Festival e Filmes de Africanos, fez com a que outros países de região se animassem a criar políticas de audiovisual e rompessem com o monopólio francês sobre as salas de cinema do oeste africano. Estimulando a todos envolvidos a ampliar a iniciativa do Festival. Como diz Diawara:

A ação simbólica de Alto Volta contra as distribuidoras estrangeiras e a exposição dos filmes africanos nas duas Semanas de Cinema também encorajaram os cineastas do continente (a Federação Pan-africana de Cineasta – FEPACI) a se unir com o governo voltaico e mudar Semana de Cinema em um festival continental que pudesse colocar os filmes em competição e conceder prêmios. A segunda fase dos eventos de filmes em Ouagadougou começou com o inovações qualitativas e quantitativas e um novo nome: o Festival Pan-africano de Cinema de Ouagadougou. (grifos meus) [12]

Os grifos colocados na forma pela qual Diawara chama o Festival de Cinema foram para destacar uma confusão que aponta para a ausência de pesquisas sobre o Festival comentadas anteriormente. Diawara, como muito outros comentadores e também parte da imprensa, chama as duas primeiras edições da inciativa de Ouagadougou de “Semana de Cinema”. Segundo Dupré, essa confusão de nomes teve início após 1970, quando algumas mídias impressas começaram a chamar assim o Festival sem nenhum motivo aparente –desconsiderando, inclusive, que os dois festivais duraram 15 dias cada e não uma semana. Fato é que este nome ganhou fama e, a meu ver, acabou se tornando um meio de distinção entre a etapa inicial do Fespaco e a forma pela qual ele se desenvolveu após 1972, com a terceira edição. Contudo, para o historiador francês, mesmo que seja difícil indicar a origem dessa deformação, ela se torna significativa pois indica o estado das pesquisas e da qualidade do jornalismo sobre o Festival. Ele acusa também o próprio Festival de tanto dificultar o acesso à informação quanto da má preservação dos documentos que tratam da fundação do evento. “Se o festival houvesse empreendido uma política de conservação, o problema jamais se colocaria nesses termos. Para o período de 1969-1979 não há documento algum.”[13] Vemos assim que a questão dos acervos do cinema africano também constituem um tema para preocupação e pesquisa dos estudiosos interessados no assunto.

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Em breve publicaremos últim parte do artigo.

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NOTAS

 

* Este artigo foi publicado integralmente na Revista Odeere, Vol. 1, No 1 (2016): Áfricas e culturas: sociabilidades e política no continente africano.

[1] Diz Dovey: “O ponto desta breve comparação entre as JCC e o Fespaco não é para desvalorizar a importância da primeira, cuja contribuição histórica e contemporânea para o fazer filmes africanos é indiscutível, e que é famosa pelo comprometimento apaixonado de sua audiência (haja visto o documentário From Carthage to Carthage). Trata-se simplesmente de um tentativa de entender o porquê da maioria dos realizadores africanos darem maior prioridade ao Fespaco que às JCC, por que o Fespaco tem sido visto, até recentemente – mesmo quando novas iniciativas entram em cena como o AMMA (African Movie Academy Awards) – como o moldador institucional mais importante de um certo tipo de a filmes africanos”. Cf. DOVEY, Lindiwe. Curating Africa in the Age of Film Festivals. Nova York: Palgrave Macmilla, 2015. Edição Kindle, capítulo 4. pos. 2678 e 2694.

[2] Idem, p.98

[3] Babo Éric Benon, “Panorama des politques culturelles du Burkina Faso, 1960 – 1991”, apud Dupré, Op. cit, p. 85.

[4] Diawara, Op.cit., p.129.

[5] Dovey, Op. cit, cap. 4, pos. 2711.

[6] Sobre a quantidade de filmes exibidos na primeira edição do Festival de Cinema Africano de Ouagadougou, Diawara (Op. cit, p.129) afirma que foram 25 filmes, já Dupré, mais uma vez seguindo as informações de Hamidou Ouédraogo, diz que foram 23 no total. Diawara inclui o Mali na lista, mas não fala do Benin. Dupré, ainda que cite o filme do Liceu de Bamako, não coloca o Mali no quadro de países. Aqui optei, por seguir a lista de filmes de Dupré, o que me levou a incluir Mali (filme do Liceu Técnico), Costa do Marfim e Congo, com os curtas metragens de Mouna ou le rêve d’un artiste de Henri Duparc e Kaka-yo de Sébastien Kamba. Entre os países, Brasil e Itália (países co-produtores de Orfeu Negro de Marcel Camus) não entraram em nenhuma das listas consultadas, não sendo computados aqui também.

[7] Diawara, Op. cit., p. 129.

[8] Dupré, Op. cit., p.97.

[9] Idem, p. 103.

[10] O nome burkinabé é epiceno, invariável em gênero e em número, segundo o dicionário Larrousse (Dupré, 2012, p.17). Em realidade, não há uma tradução para o português em uma única palavra para designar o gentílico de Burkina Faso. Assim, se fala burkinabé e não “burquinense”, pois como o nome vem de duas línguas locais, não é adequada esse tipo de terminação. Motivo pelo qual aqui optei manter burkinabé tal como encontrado nas literaturas sobre o país e o cinema local. O nome Burkina Faso substituiu a designação colonial de Alto Volta e é composto por palavras que vêm das etnias dioula e morée, cujas línguas são faladas pela maioria da população. Burkina, significa homem íntegro em morée, Faso, em dioula quer dizer casa, terra, país e em peul (outra etnia da região) quer dizer aquele que habita. Desde modo, Burkina Faso significa “o país dos homens íntegros” e burkinabé aquele que habita o país dos homens íntegros.

[11] Criada em 1969, a Federação Pan-africana de Cineastas – a FEPACI – é um espaço fundamental na construção das cinematografias africanas, que surge com o propósito de dinamizar a indústria de cinema no continente, tendo como foco não apenas a produção mas também a exibição e distribuição de filmes. Ao longo dos seus 47 anos de existência, a FEPACI instaurou um campo de trocas e debates entre cineastas de diferentes regiões, ao mesmo tempo que estimulou a criação de mecanismos nacionais no âmbito das políticas culturais dos Estados africanos para a promoção e expansão do cinema. De acordo com Manthia Diawara, a história da FEPACI constitui mesmo um ponto crucial para compreensão do desenvolvimento da produção de filmes no continente africano. Em realidade, compreendo que além do desenvolvimento da produção de cinema, é possível entender em parte os atuais dilemas e desafios postos hoje no horizonte da indústria de filmes africanos através da análise da história recente da Federação. Cf. Diawara, Op. cit, capítulo 4 e também o página da Federação na internet: http://www.fepacisecretariat.org/

[12] Diawara, Op. cit., p.131.

[13] Dupré, Op. cit., p. 93.

 
  

Janaína Oliveira

Pesquisadora, é doutora em História pela PUC-Rio e professora desta disciplina no Instituto Federal do Rio de Janeiro – Campus São Gonçalo, onde coordena o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígena (NEABI). Realiza pesquisas centradas na reflexão sobre Cinema Negro, no Brasil e na diáspora, e também sobre as cinematografias africanas, sempre buscando conexões que possam incidir também na área da educação das relações étnicorraciais. Desde 2009, orienta o projeto de pesquisa “Cinegritude: reflexões sobre a invisibilidade das produções cinematográficas africanas e afro-brasileiras na contemporaneidade”. Desde 2011 participa ativamente do FESPACO, Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou e da JCFA, Journée Cinématographique de la Femme Africaine d’Image, ambos em Burkina Faso. Foi consultora do Ministério da Cultura e das Organizações das Nações Unidas. É membro também do CODESRIA (Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais em África). Recentemente, fez curadoria de filmes para as duas edições do Plateau – Festival Internacional de Praia, Cabo Verde. No Brasil, fez curadoria para a Mostra de Filmes Africanos do FINCAR - Festival Internacional de Cinema Realizadoras (PE), a 7a edição do Cachoeira Doc (BA), para o Diálogos Ausentes do Itaú Cultural - módulo de Audiovisual (SP) e para a 8a Semana dos Realizadores (RJ). Atualmente é curadora do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul. Faz parte da APAN (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro). É idealizadora e coordenadora do FICINE, Fórum Itinerante de Cinema Negro (www.ficine.org).
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