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FICINE no CINEMAISON - 1a sessão

27.04.2016 | Thiago Florêncio |

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No dia 12 de abril ocorreu a primeira das quatro ocupações que  o FICINE realizará ao longo do ano de 2016 no CineMaison, cineclube da cinemateca da Embaixada da França no Rio de Janeiro. O início desta parceria não poderia ter sido melhor: o público, que compareceu em grande número, teve a chance rara de assistir em primeira mão à exibição em película do filme La noire de... (1966) do diretor senegalês Ousmane Sembène. Este clássico do "pai do cinema africano" foi o primeiro longa a ser realizado em terras da África subsaariana por um diretor africano. Após a sessão a pesquisadora e coordenadora do FICINE, Janaína Oliveira, fez uma apresentação do diretor e de seu filme, pontuando provocações trazidas pela narrativa do cineasta que, apesar de passados exatos cinquenta anos, continuam atuais.

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A primeira diz respeito à invisibilização do negro e de suas cinematografias, seja no âmbito da produção e circulação, seja no da crítica. No início de sua fala, Janaína apresentou notícia de um veículo da grande imprensa brasileira anunciando a morte do cineasta Sembène. O texto, além de curto, quase nada revela sobre sua vida e extensa produção artística, citando apenas declarações de dois ministros ligados justamente a aparatos políticos que Sembène combatia fortemente: a francofonia e a política migratória francesa. No entanto, o mais sintomático é a foto usada para ilustrar a notícia: a imagem não é de Sembène, mas do cineasta de Burkina Faso (que não morreu) Gaston Kaboré.  

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Sembène é considerado "pai do cinema africano" não só por seu protagonismo enquanto cineasta do continente, mas também por atuar na organização de uma produção audiovisual que seguisse os princípios de um cinema feito na África, por africanos e com temas africanos. Sua militância panafricanista tinha como propósito consolidar uma produção imagética que positivasse a imagem da África e dos negros africanos, no sentido de que passassem a ser vistos em suas subjetividades e complexidades, ao contrário do que ocorria na maioria dos filmes ocidentais que objetivavam e animalizavam a personagem negra e africana. Para isso, atuou diretamente na criação da Primeira Semana de Filmes de Ouagadogou (1969), cujos propósitos de se nacionalizar as salas de cinema e de se criar um fundo à produção e distribuição do cinema africano foi se consolidando até culminar na criação do mais importante festival de cinema africano: o FESPACO (Festival Panafricano de Televisão e Cinema de Ouagadougou).

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La noire de... retrata a vida e morte de Diouana, empregada senegalesa que sai de Dakar para trabalhar com uma família burguesa no sul da França. Aos poucos ela vai descobrindo que o sonho de abandonar a terra natal para uma vida melhor na Europa revela-se um pesadelo, um novo tipo de escravidão moderna. Acompanhamos a luta da personagem para manter-se viva diante de sua objetificação frente ao olhar colonial. Na maioria das cenas ela é apresentada em plano neutro ou objetivo e em distância focal. Esse olhar neutro do colonizador está presente não só na gramática dos planos, mas também nos óculos escuros utilizados pelos franceses. A fala pausada e monótona de Diouana, na primeira pessoa e em voz off, faz o espectador penetrar na subjetividade e solidão da personagem, cujo exílio vai se transformando em desespero até ela ser tragada pela escolha fatal do suicídio. Mas antes de se suicidar, a protagonista, cuja alienação da identidade é marcada pelo sonho de querer ser europeia, opera uma virada representacional na medida em que ela vai se despindo dos signos ocidentais: seu corpo, seu cabelo e suas roupas africanizam-se, até ela tomar posse e consciência de quem é. Essa seqüência do filme, de rara beleza, culmina no único plano subjetivo de Diouana, com a câmera em movimento circular observando na mesma altura do olhar o rosto da patroa enquanto ambas brigam para tomar posse de uma máscara africana. A máscara é a metonímia da luta dos africanos por sua soberania e identidade.

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 De fato, a questão da máscara foi bastante analisada e discutida ao final da apresentação de Janaína Oliveira, que esmiuçou as diversas formas de apropriação e reapropriação de seu significado no contexto de descolonização das mentes e das telas a que se propôs o cinema de Sembène. Passando de um objeto de uso mágico, posteriormente museificada no contexto colonial, a máscara torna-se símbolo da africanidade perdida por Diouana em terras francesas.  Quando o menino a recupera em Dakar, a máscara adquire finalmente, nos dizeres de Sembene e citado por Janaína, "um valor de protesto político e de resistência cultural. Para mim essa máscara não tem mais o valor místico que lhe atribuíam nossos ancestrais, mas um símbolo de identidade e de unidade africanas.”  

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O FICINE agradece a toda a equipe do Cinemaison: Paule Maillet, Matthieu Thibaudault, Thomas Sparfel, Olivia Tran e Gustavo Andreotta. E que venham os próximos!

Veja a seguir um pouco de como foi  nossa primeira sessão de 2016 no registro do nosso parceiro João Carvalho.

 

           

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Thiago Florêncio

Historiador e Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-RIO. Pesquisa diferentes formas de se pensar a relação entre arte e pensamento decolonial, conjugando estudos de Teoria Literária, História e Antropologia. Foi ator e pesquisador do CATAC (Centro de Antropologia do Teatro do Acre). Foi professor substituto de História da África e Currículo (UERJ). Participou do projeto de residência artística DIGIBAP, da AMI (França), envolvendo encontros entre artistas e pesquisadores da África francófona, da França e do Brasil.
Outros artigos do autor:
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