Fórum Itinerante de Cinema Negro

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CINEMA NEGRO – sobre uma categoria de análise para a sociologia das relações raciais (parte 2)

21.10.2014 | Maíra Zenun |

Jefeson De - Carolina

3. A quem interessa um cinema negro?

O cinema é, sem sombra de dúvidas, um tipo de saber social. Ao ser tratado pela sociologia como objeto de estudo, é necessário que antes ele seja localizado, contextualizado e discutido, a partir da sua elaboração. Assim como qualquer outra forma de conhecimento. Inclusive por suas características mais primordiais, o cinema (áudio + visual) revela o quanto sua produção é resultado de múltiplas práticas políticas e culturais. Por ser uma arte-tecnológica, temporal, é necessário que se observe, simultaneamente, técnica/estrutura e agentes envolvidos. Outro fator importante: a narrativa cinematográfica é resultado de processos desencadeados por ações coletivas - equipes, movimentos, indústrias -, o que implica diretamente no reflexo e na reprodução de relações estabelecidas dentro, fora ou entre os grupos sociais produtores/consumidores.

Ou seja, no Brasil ou em Burkina Faso, não importa, o cinema acaba transformando o universo da imagem em universo da representação: recriando, reinterpretando e ressignificando detalhes da vida social. O problema é que a vida social em Burkina Faso é uma, e no Brasil, outra. Logo, as representações em si, serão outras, embora sempre haja representações sobre as relações sociais, sobre o mundo de um modo geral. Diversas delas, tanto em Ouagadougou quanto em Brasília. Afinal, cada cinema carrega as representações sociais que lhe são próprias, e geralmente estão relacionadas às suas próprias demandas, culturais e políticas (CODATO, 2010:53).

Neste contexto, novas representações do negro surgem a partir do final do século XX, desta vez, munidas e informadas pelo acúmulo crítico que representou a clivagem cinemanovista, os filmes negros da África e os movimentos negros: africano e estadunidense (CARVALHO apud DE, 2005). A categoria de cinema negro, portanto, assume uma nova definição: para ser negro, tem que ser um cinema realizado, dirigido e representado por protagonistas negros, como uma questão de autorrepresentação (UKADIKE, 1994: 304-308).

No Brasil, essas questões repercutem em dois movimentos promovidos por atores e cineastas negros. São dois grupos que formulam e propõem suas próprias estratégias de sobrevivencia, no inicio da década de 2000, interessados em discutir a questão da autorrepresentação da negritude brasileira, e promover o aumento da produção de cinema negro.

« Tanto o Dogma Feijoada quanto o Manifesto do Recife reivindicavam diferenciações tanto estéticas quanto políticas no sentido de diferenciar um cinema produzido por negros e negras como forma de expressarem suas identidades, quanto no que se refere ao tratamento governamental no apoio a projetos e iniciativas. Ambos almejavam alcançar com seus filmes o mesmo patamar de qualquer outro, mas trazendo consigo a diferenciação étnica como uma marca. ». (SANTOS e BERARDO, 2013: 102).

O Manifesto do Recife (2001) reivindicou maior inserção de afro-brasileiros nas áreas de cinema, publicidade e televisão, e propôs:

  1. fim da segregação no mercado das telecomunicações;
  2. criação de fundo de incentivo;
  3. ampliação do mercado de trabalho, e;
  4. nova estética imagética da diversidade brasileira (SOUZA, 2006: 28).

Já o Dogma Feijoada (2000) propõe a criação de um cinema negro a partir de sete « mandamentos »:

  1. filmes dirigidos por realizador negro;
  2. protagonista negro;
  3. temática relacionada a cultura negra brasileira;
  4. filmes de emergência, com cronogramas exequíveis;
  5. personagens estereotipados negros (ou não) são proibidos;
  6. roteiro que privilegie o negro brasileiro comum, e por último;
  7. super heróis ou bandidos serão evitados.

Destas premissas, entende-se que, fazer o próprio cinema torna-se a única maneira pela qual os negros, excluídos pela estrutura da branquidade (WARE, 2004), de expressar voz própria e colaborar para a construção de histórias, e estórias cinematográficas mais « autênticas ».

Seguindo, portanto, esta linha de raciocínio, é possível concluir que a expressão cinema negro começa a aparecer na década de 1920, na prática do estadunidense Oscar Micheaux, e no discurso de quem está fazendo, ou querendo fazer cinema. Contudo, o pensamento, o campo de estudos sobre cinema, especificamente sobre a produção africana, brasileira, caribenha e latino americana, se refere a uma produção de cinema negro somente a partir da década de 1960 (PRUDENTE, 2005). Atualmente, esta expressão está super em voga e muitos pesquisadores já se dedicam a estudar os cinemas negros, especialmente a partir da perspectiva sobre a quem interessaria a existência de um cinema negro.

Para Júlio César dos Santos e Rosa Maria Berardo (2013), é possível argumentar sobre dois modos específicos de interesse neste cinema. Primeiro, àquele em que sujeitos negros buscam por uma afirmação identitária, que valorize e reconheça as suas especificidades corpóreas e culturais. Em segundo lugar, outro grupo, caracteristicamente assentado na ideia de homogeneização dos seres humanos, que concebe as diferenças como um nicho de mercado que deve ser atendido em suas demandas e necessidades. De fato, « ou se produz um ‘cinema negro’, ou um ‘cinema para negros’, e nisto encontram-se diferenças bastante significativas ». (SANTOS e BERARDO, 2013: 104).

4. Considerações Finais

A história visual de uma sociedade guarda em si a expressão/representação de situações, estilos de vida, gestos, corporeidades, performances, rituais etc. Ela guarda registros, revela expressões estéticas, artísticas, gostos, práticas ideológicas e políticas, cria memória. Enfim, as culturas contemporâneas conferem muito poder ao olhar como instrumento, e em função disso, a produção de audiovisual vem crescendo mundialmente. O cinema, diferente do vídeo assistido no Youtube, é alguma coisa que não se esgota na imagem. Ao contrário, o cinema somente se realiza a partir do momento que se cumpre o seu processo de produção, minimamente estruturado em três etapas: realização, distribuição e exibição. Portanto, estudar o cinema e suas imagens significa ter acesso a representações de um imaginário cotidianamente recriado e em movimento.

Problematizar as ideias sobre o cinema negro em forma de categoria analítica é, no caso apresentado, uma escolha metodológica de quem busca pensar a produção cinematográfica de territórios africanos, ou diaspóricos. A questão, portanto, é pensar como as estruturas de representação estão presas a certas perspectivas com relação ao fazer cinematográfico, e o quê exatamente este fazer cinematográfico constrói enquanto narrativa identitária, cultural. Ou seja, procuro apresentar um panorama mais geral sobre o direito de formular cinematograficamente representações sobre a própria visão de mundo, como forma política de valorização, legitimação e reafirmação de sua beleza e valor social. A discussão sobre esta categoria se constitui, no caso, um instrumento importante para reflexão a respeito da representação e a autorrepresentação das identidades negras.

Por fim, vale ponderar que o cinema negro apresentado ao longo deste texto, independente de funcionar ou não como categoria de análise a priori, encontra-se ancorado em boa parte da fundamentação teórica utilizada pelo campo de estudos sobre o cinema produzido in black Africa, e sobre esta mesma produção empreendida por populações afro-diaspóricas. Trata-se, sobretudo, de uma categoria que hoje pretende investigar e analisar, essencialmente, filmes que foram realizados por indivíduos negros, em territórios negros, sobre indivíduos negros – não necessariamente sob uma obrigatoriedade de todos esses aspectos. E que, de alguma forma, refletem as subjetividades estéticas e discursivas inerentes às populações negras afetadas pela herança racista do escravismo colonial.

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Referências Bibliográficas

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Na foto: Jeferson De e Zezé Motta nas filmagens de "Carolina" (2003)

 
  

Maíra Zenun

Socióloga, pesquisadora, educadora, videografista e fotógrafa. Concluiu, em 2007, o Mestrado em Sociologia da Cultura, pela Universidade de Brasília (UnB), onde tratou sobre o processo de industrialização do cinema brasileiro e apresentou a dissertação "Os intelectuais na terra de Vera Cruz: cultura, identidade e modernidade." Atualmente, é aluna do curso de Doutorado em Sociologia da Cultura, pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com o projeto "Imagens e Autorrepresentação: uma estética negra no cinema africano.". Há mais de quatro anos, participa, como pesquisadora convidada, do TRANSE/UnB – Núcleo Transdisciplinar de Estudos sobre a Performance –, orientado pelo Prof. Dr. João Gabriel Teixeira. Também mantém um blog de imagens – www.floresdemaiomairazenun.com.br –, onde expõe pesquisa sobre a questão da autorrepresentação das culturas negras contemporâneas (Centro-Oeste brasileiro), além de um estudo sobre formas de se realizar etnografias urbanas através do audiovisual. Quanto a experiência profissional, atua há mais de sete anos como professora de Sociologia, para o Ensino Médio, e Antropologia e Sociologia para o Ensino Superior. Possui publicações e participação em eventos na área de Ciências Sociais/Humanas e Artes Visuais, onde já apresentou trabalhos com ênfase nas linguagens da Sociologia da Cultura e da Imagem, Fotografia, Cinema, Vídeo-performance e Educação. Por fim, atua com os seguintes temas acadêmicos: audiovisual, cinema, educação, fotografia contemporânea, literatura, recepção, representação e autorrepresentação social, performance, sociologia do conhecimento visual e sociologia da cultura.
Outros artigos do autor:
CINEMA NEGRO – Sobre uma categoria de análise para a sociologia das relações raciais (parte 1)
CINEMA NEGRO – sobre uma categoria de análise para a sociologia das relações raciais (parte 2)